sexta-feira, 13 de novembro de 2015

MÃE DO SOL



Era uma vez um menino. Ele se achava pobre, com sua piscina que não era piscina; mas sim cachoeira. Tinha medo dos pequenos redemoinhos porque soube neles ia o saci. Depois os mais velhos disseram que não havia saci algum. Que era lenda.

Livro ele tinha um, com estampas de pássaros e montanhas. Ele o achava lindo. Com o tempo viu que morava dentro do livro, porque morava entre aves e montanhas no sítio dos pais.

Ele tinha um bom estilingue; mas nunca matou pássaro algum. Quando saía com os meninos para caçar era o primeiro a mandar pedrada, contudo sempre errava. É moleque grosso, protestavam os colegas, sem desconfiar do erro intencional. Erro de propósito. Para espantar os pássaros.

Dos pássaros o que ele mais gostava era do canarinho, porque tinha cabeça de fogo. Nos seus desenhos sempre buscava o melhor vermelho para colorir as cabeças dos seus canários de caderno de desenho.

Encantou-se com certa afirmação do pai que havia um pássaro que era de fogo inteiro. O nome era mãe do sol. Com o tempo virou obsessão encontrá-lo, embora houvesse ciência da raridade, ainda segundo o pai.

Algum tempo depois começou a desconfiar que tal não existisse. Que era mais uma das invenções do pai. Ou quem sabe até o pai acreditasse, mas que não passasse de lenda, como o saci no olho do redemoinho.

Certa manhã sua mãe chamou-o para recolher ovos. Ele ficou quieto, não podia responder. Ela o chamou novamente, irritada. Ele, petrificado, nem respirava. No pomar entre o doce das frutas via o sanhaço mãe-do-sol. Nunca vira vermelho mais lindo. Era ainda mais lindo do que o pai garantira. Jamais conseguiria um vermelho daquele com seus lápis de cor.

Sua mãe desistindo dele pediu intervenção ao pai. Disse que o menino estava de gracinha. Preguiçoso. O pai veio bufando, pisando pesado parece querendo afundar o mundo. Achou o menino. Que pena. Ralhou com ele. Beliscou-o. A movimentação assustou o mãe-do-sol, que repicou asinhas.

Ah, o menino suspirou fundo. O pássaro cor de fogo fugindo para longe. O menino olhando. Olhando.


Ao que o pássaro sumiu no horizonte, para os lados das terras do Antônio Rocha, isso passado mais de minuto do beliscão, o menino gritou, numa dor retardada: ai, pai. Massageou a pele beliscada.

O pai, que já ia há alguns metros, sem virar as costas disse: eita moleque doido. O menino ainda tentou argumentar, com voz frágil, quase sumida. O mãe do sol, pai. O pai olhou em volta. Não viu nada.


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