sábado, 28 de novembro de 2015

VIVA VIVA

O picharolê eu achava emblemático. Não o via muito, assim,
Em terreno aberto. Sempre afundado aos capões de matos
Como fosse pássaro de outro mundo, misterioso.

Das vacas eu gostava da Malhada, por ser errante, rebelde.
Não acompanhava as outras de jeito nenhum. Sempre-sempre
Eu tinha que buscá-la para que meu pai pudesse ordenhá-la.

O Rex era amigo. Um cachorro de olhar triste. Não sei. Parecia
Sempre com dor. Vai ver estava mesmo e tentava me comunicar
E eu não entendia, envolvido com tantas brincadeiras.

Bom era andar atrás da máquina de fazer estradas do Pedro,
A máquina de esteira. Cortava barrancos como cortasse manteiga
E eu ia pisando descalço à terra fresquinha recém-descoberta.

Felicidade foi quando chegou energia elétrica em casa. Como
Dormimos felizes àquela noite. A casa parecia outra. Minha
Mãe como sempre falou demais; meu pai, de menos.

Ah, como o tempo de criança é rico. A madrinha Lazara que morava
Na casa mais linda do mundo, de tijolos à vista e cercada de flores,
Pegava-me e me lançava para cima dizendo: viva! Viva!


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Imaginação

Um ipê amarelo
Lançou pétalas
Ao chão laminado
Das águas da
Chuva da madrugada

O azul do céu
Emprestou cor
Ao chão que por
Reflexo azul
Também se tornou

Borboletas amarelas
Vieram ali beijar
As pétalas lançadas
Pelo ipê amarelo

Vertigem, então
Foi o que senti

Eu não sabia
O que era céu
O que era chão
O que era pétala
Ou borboleta era

Se é muita a imaginação
Há de se desconfiar
Até do que se vê
Pelos olhos capazes
De ludibriar

domingo, 22 de novembro de 2015

Margô


Essa minha vizinha do andar de cima, não sei não. Cara de boazinha. Sempre com sorriso no rosto. Mas não falo de riso debochado, não. Falo daqueles de quem se faz de bonzinho. “De quem se faz” porque não acredito seja boazinha do jeito que parece. Ninguém é assim, gente. O tempo todo. Sempre, sempre. Impossível. A não ser que seja caso de boboalegrismo exacerbado, como diria o Pastor. Apesar de que de boba ela não tem nada. Por acaso não ouço a gemedeira às madrugadas? Sei bem como é a atuação dela na cama. É trabalho de quenga, gente. Coisa profissional. E pelos ruídos, que vou acompanhando com ouvidos abertos, acho que trabalham em diversos cômodos da casa. Inclusive, chão. Não é coisa de gente decente de forma alguma. Parece que ouço até tapas. Credo. E teve um dia que acho até que o marido não estava e eu ouvi a gemedeira do mesmo jeito. Tenho quase certeza. Mulherzinha dissimulada. Eu já pelejei com a moça do salão para me contar se ela (a minha vizinha) também se depila tudo. Falo lá de baixo. Tá entendendo, né. Fica com aqueles saiões de falsa pudica. Deve ser carequinha lá embaixo. Dá-me até febre o ódio que tenho dela. O marido deve ser um belo de um corno. Às vezes até penso em lhe abrir os olhos, mas receio que me entenda mal. Aliás, ele é bem bonitão. Torço para que descubra tudo e dê logo pé no traseiro da rameira. Falsa, imoral. Não tô desejando mal, não. Tô desejando bem. Se quero o bem dos outros, quero também o bem dele, que parece bom homem. Assim, que descubra que a mulher não é quem aparenta. Um dia ela tropeçou na saída do prédio e tentou se segurar em mim. Eu fazendo que não percebi tirei o corpo. Deus que me perdoe. Quis mesmo que se esborrachasse no chão. Mas não. O diabo deve tê-la ajudado. Não tinha como não cair; mas não caiu. E no que tentei tirar o corpo acabei eu virando um pé. Vejam só. Fui eu quem se machucou. Deve ter sido também o diabo, por odiar quem é de Deus. Tudo por causa da marafona. Loira falsa. Eu não quero que me ache invejosa, não. É que odeio falsidade. As vizinhas amam conversar com a sujeita. Já comigo nem falam direito. Não passam de frios bons-dias e boas-tardes. Caras amarradas. Já com ela são conversas longas, cheias de risadas. Vadias. São todas vadias. Decerto falam como enganam seus maridos. Decerto debocham deles. Ah, vou parando por aqui. Esse assunto me deixa doente. Agora vou sair. Tenho que aproveitar o horário da tarde, que é quando meu marido está trabalhando.



sábado, 21 de novembro de 2015

Propriedade



Falou para o passarinho
Que seria só dele a casa
Apenas dele também o galho
Permanente o seu ninho

Também poderia se preferisse
Armazenar seus alimentos
Para que estivesse sempre bem
E nada lhe faltasse

O passarinho olhou a volta
Pensou não responder
O seu interlocutor esperava
Respondeu. Nada me falta.

Percebendo sua liberdade
Sorrindo, bateu asas
Pensou: é cada bicho
Louco que aparece