quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

FESTA DA PADROEIRA

Dizem que teve congada
Banda e show com foguete
Foi um festão a Festa
Da Padroeira de 1987
Os festeiros foram
O Tião e a Beth
Dizem até que há
Filmagem na internet
Eu queria ter ido
Decerto lotou lá no cido
No vô a parentada
Toda reunida
O Vô, o padrinho e
O tio Valdomiro
Ainda vivos
Se bobear o Cido
Vendeu mais
De 500 pasteis
E o povão ferveu
No salão paroquial
Comendo a vontade
Macarronada
Com leitoa assada
A vida é tão especial
Queimados os fogos
Nunca será igual

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Juro

Eu ria. Ria muito
Ralhavam comigo
Eu tinha uns seis, acho
Mas juro durante o terço
Ouvia as rezadeiras
Dizer Bendita sois
Vós entre as muLEres
Eu não me aguentava
Ouvia muLEres
Eu tentava ouvir direito
Mas não conseguia, juro

sábado, 6 de fevereiro de 2016

CARETA





Nem tudo é razão, sei
         Veja SEU beijo, por exemplo
L     O U  CO
                                         Mas isso também sei
                                         Porque você é louca
                                         E assim naturalmente
                                         Seu beijo também O é
Essas coisinhas humanas
  c o m o   a í   d i z
                     Lógico     cha.te.am.
Mas daí a ser tão louca
                                      (...)
      Você vive aí com suas festas
        C O M   O S   S E U S
Porque há os sérios
 Se preocupaNDO e agINDO
Então garantINDO um mínimo
FuncionAMENTO de tudo
              Queria ver
              Se todos fossem como você (S)
                               A palavra CARETA teria significado
Apenas para descrever a cara
Das suas dificuldades

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

DOS DERRADEIROS MOMENTOS DO FILHO COM O PAI



O pai olhava sem ver. Uns olhos embaçados, opacos. As pálpebras batiam moles, fracas. O filho viu semelhança com ondas de mar. Ao que fechavam eram o mar vindo, cobrindo areias. Ao que abriam eram ele indo, encurtando-se. O filho olhava quase hipnotizado. Tantas lembranças. A respiração do pai também era fraca e doente. O lençol tão branco. Num fechar de olhos, um gemido baixo. Quem sabe seria tosse ou engasgo se o pai tivesse forças. O que lembrava vir foi ir. Ninguém precisava falar. O filho sentiu. O pai se foi. Nunca mais abriria os olhos. Que secura o filho sentiu. Um abafamento e tudo ficando insuportável, o corpo do pai estendido no lençol branco com cheiro de limpeza. Quando alguém se vai, tanto vai com ele, pensou o filho sentindo a respiração desgovernada como o tropel de um cavalo doido em disparada; buscou dominá-la. Tanta coisa por dizer ao pai. Deu três passos até a janela. Lá fora um dia embaçado, opaco. Ele fechou uma mão, socou o batente como se sua mão fosse um martelo. Não sentiu dor, apenas o chiar de uma brisa aos ouvidos, como cochichasse algo. Apoiou-se. Fechou os olhos. Quis crer que aquele fechar de olhos do pai não era condenação à eterna escuridão. Virou-se. Olhou mais uma vez o corpo estendido. Pensou abraçá-lo. Desistiu. Se em vida faltou o abraço franco, gostoso, peito com peito. Agora não adiantava. O pai não estava mais ali. Quis expulsar a velha dúvida. Se com a morte acaba tudo ou não. De repente um som de buzina da rua e um quase susto. Apenas aí notou o cheiro forte do hospital. Parecia de limpeza, mas exagerado. Ele não gostou do cheiro. Dali por diante sempre o associaria àquele momento. Apenas então avisou as enfermeiras, que se impressionaram com a calma dele. Enquanto vinham fazer o que tinha que ser feito ele pegou o telefone e ligou ao seu filho, avisando que o avô falecera. Os dois choraram. Copiosamente choraram. Se de verdade acreditassem na vida após a morte, o momento não lhes seria tão dolorido.