quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

DOS DERRADEIROS MOMENTOS DO FILHO COM O PAI



O pai olhava sem ver. Uns olhos embaçados, opacos. As pálpebras batiam moles, fracas. O filho viu semelhança com ondas de mar. Ao que fechavam eram o mar vindo, cobrindo areias. Ao que abriam eram ele indo, encurtando-se. O filho olhava quase hipnotizado. Tantas lembranças. A respiração do pai também era fraca e doente. O lençol tão branco. Num fechar de olhos, um gemido baixo. Quem sabe seria tosse ou engasgo se o pai tivesse forças. O que lembrava vir foi ir. Ninguém precisava falar. O filho sentiu. O pai se foi. Nunca mais abriria os olhos. Que secura o filho sentiu. Um abafamento e tudo ficando insuportável, o corpo do pai estendido no lençol branco com cheiro de limpeza. Quando alguém se vai, tanto vai com ele, pensou o filho sentindo a respiração desgovernada como o tropel de um cavalo doido em disparada; buscou dominá-la. Tanta coisa por dizer ao pai. Deu três passos até a janela. Lá fora um dia embaçado, opaco. Ele fechou uma mão, socou o batente como se sua mão fosse um martelo. Não sentiu dor, apenas o chiar de uma brisa aos ouvidos, como cochichasse algo. Apoiou-se. Fechou os olhos. Quis crer que aquele fechar de olhos do pai não era condenação à eterna escuridão. Virou-se. Olhou mais uma vez o corpo estendido. Pensou abraçá-lo. Desistiu. Se em vida faltou o abraço franco, gostoso, peito com peito. Agora não adiantava. O pai não estava mais ali. Quis expulsar a velha dúvida. Se com a morte acaba tudo ou não. De repente um som de buzina da rua e um quase susto. Apenas aí notou o cheiro forte do hospital. Parecia de limpeza, mas exagerado. Ele não gostou do cheiro. Dali por diante sempre o associaria àquele momento. Apenas então avisou as enfermeiras, que se impressionaram com a calma dele. Enquanto vinham fazer o que tinha que ser feito ele pegou o telefone e ligou ao seu filho, avisando que o avô falecera. Os dois choraram. Copiosamente choraram. Se de verdade acreditassem na vida após a morte, o momento não lhes seria tão dolorido.



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