terça-feira, 31 de maio de 2016

Plec Plec Plec

Plec Plec Plec
Muito lindo esse
Seu corte
Mamãe dizia a dona
Da encomenda
Vai ficar lindo o
Vestido
Isso por mais feio
Que fosse a
Estampa

Plec Plec Plec
Eu dormia e acordava
E lá mamãe estava
Pedalando, pedalando
Os tecidos recortados
Machucados pela agulha
Ponto por ponto
Um caminho se fazendo
Cada ponto um degrau
Realizando o projeto
Recortado no jornal

Plec Plec Plec
Sempre forçando
Para sobrar
Um retalho aqui
Outro acolá
A dar corpo as
Minhas camisas
E aos vestidos dela
Sobrando às clientes
Shortinhos e minissaias
De por arrepiado
Maridos e namorados

Plec Plec Plec
Mais uma vez
Espio trincas
E às funduras da
Minha memória
Vejo mamãe
Debruçada sobre
Suas costuras
Vestindo vestidos
Tão coloridos
De restos sortidos
E botões
Encapados em
Cores diversas
A fazer par
Com o arco-íris

SO(L)VETE

O sol se amolece
E vai caindo
Fraquejado à corcova
Das montanhas

Ido seu doce
Derretido
Se vai sua
Luz cremosa

Loucas de fome
Logo dispersarão
Formigas que
Chamamos estrelas

Acharão o
Queijo da lua
Mas somente
Doce para
Acalmá-las

Zanzarão
Zanzarão
Desnorteadas
Feito vaga-lumes

Só sossegarão
Quando o Pai
Nos mandar mais
Uma bola de
Sorvete

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Doce

Mamãe diz para eu moer café. Eu protesto, mas vou. Como sempre. Deixo o cachorro Jaú, que abana a cauda querendo brincar mais. Ouço o cocoricado gargalhado das galinhas como rissem de mim. Pego duas medidas (com uma cuinha) de café torrado na lata com desenho de passarinhos. Despejo. Meu braço põe força no giro. Vou olhando os grãos descendo pelo copinho do moinho como num sumidouro. Aquele barulho triturado, crepitante. Os grãos sumidos reaparecem pó. Eu canso. Paro. Um vento zoando, zoando faz barulho de cachoeira nas pereiras dos lados do Antônio Rocha. As galinhas se assustam, correm. Vai chover, mamãe diz. Papai concorda. Começo a girar novamente com o outro braço. Mamãe reclama que não gosta de galinhas brancas. Porque são vistas de longe pelo gavião. Papai sorri da implicância dela. Meu outro braço começa a doer também. Diminuo a velocidade. A repetição, por menor que seja, enfada a gente. Mamãe grita: já acabou menino. Acelero. O cheiro se alastrando pela cozinha. Dou pela correria atrapalhada de mamãe e papai guardando coisas. Eles riem porque o Jaú achando que papai brincava trançou-se entre as pernas dele. Papai quase caiu. Certamente o riso fácil era pela chuva que vinha. Principalmente depois de uma estiagem, na roça chuva é benção. Caía cada pingão. Espiei para os lados do pomar. Tudo cinza, riscado. O Jaú se protegia embaixo do chuchuzeiro. Orelhas relaxadas. Traseiro no chão e o resto do corpo levantado. Eu assoviei. Ele agitou o rabo, arrebitou as orelhas. Mamãe gritou: pronto menino. O gato ali na cozinha comigo parecendo hipnotizado com a chuva, assustou-se com mamãe. Pulou da taipa do fogão. Cheiro de pó de café, de terra molhada. Ah, a doce infância na roça.  

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Estado Poético

Tem um canarinho que
Canta-que-canta
Num pé de primavera
Do outro lado da avenida

Um amigo falou
Em Estado Poético
Em ser feliz
Fiquei pensando

Os filhos veem algo
De perfeição nos pais
Bem longe da imperfeição
Vista pelos demais

O canário tanto canta
Que até me atropela
Ideias. Pois paro
Para ouvi-lo

Uma malcriação
Pode ter mais
De espinhos no próprio
Peito que vontade
De ferir alguém

Ser treinado mais para ver
Coisas bonitas, lado bom
Esse é o Estado Poético
De que falou JABBarros

Não escrevi estas linhas
Pensando em passarinhos
Mas ouvir mais o canarinho
Que os carros na avenida

É algo que gosto
E até busco em mim
(E vejo que vou
Em boa trilha) 

terça-feira, 24 de maio de 2016

FOREVER YOUNG



Voou passarinho
Voou passarinho

Além
Da clave de fá
E da clave de sol
Agora a clave de céu

Anjos desconcertados
Harpas limitadas
Tentando acompanhar
O novo rock n roll

Voou passarinho
Voou passarinho

A bebida é amarga
Faltam palavras
Sobra carinho
É seguir caminho

Tem veneno
Tem espinhos
Mas não se
Está sozinho

Voou passarinho
Voou passarinho

Se não adiantar
O verso 
Tem o terço
E o mantra
Repetido da reza
(Torço)
Levará um pé
Para o outro
Lado do rio
E então
O sublime

Morre o corpo
Voa a alma
Para sempre o
Jovem homem
De barba

Voou passarinho
Voou passarinho








sábado, 21 de maio de 2016

LEVEZA



Fui sem saber. Falaram em música e poesia. Como não dar certo. Era 20/05/2016. Somei os números. Deu 7. Número sagrado, como dar errado.

O ambiente era dourado e com cheiro especial. De velas. Que alteavam castiçais dourados e douravam tudo.

O cantor era um. E também apenas um violão. Mas às vezes se ouvia outras vozes e se sentia vários instrumentos, senão uma orquestra inteira.

E não falo de efeitos gravados não. O show era totalmente acústico. Falo da sensação de quem assistia.
A leveza da música e das falas, a voz potente e macia do cantor, atingia aquele lugar da gente além dos muros, cercas de arames, marimbondos, derretendo o que é ruim.


Às vezes parecia que que não era ele. Que era algo que vinha através dele. Que teria o corpo possuído numa manifestação sobrenatural. Ele seria mera marionete de vários seres. Lembrei-me de Poltergeist.

Senti-me numa sessão do Santo Daime, a religião das matas, após o terceiro copo do suco do cipó. Até a afinação do violão pareceu sobrenatural, num vai e vem acústico e elástico.

Teve momentos em que ele parou de cantar para ouvir as pessoas cantando, de olhos fechados. Conexão de mentes.

Até as velas pareciam flutuar, como fossem bolhas de sabão em forma de pingos de fogo. O escuro dourado, macio e confortável parecia dentro da gente.

O ponto alto foi Paciência, de Lenine. Mas, além, teve muita música boa. Muito autoral. No final, quando ele falou em “show com música mística e poesia”, eu sorri.

Eu nem sabia disso de “mística”. Soube que era música e poesia. E de fato ele nem precisava falar em mística, por que todos, de qualquer forma, sentiriam de qualquer jeito, sem que falasse.

Fui sem saber. Me dei bem. Que presente do Padre Márcio. Isso no salão paroquial da Igreja de Santa Tereza. O cantor, o Tom de Minas. Místico. Toca a troca de sorrisos. À noite, estou falando sério, tive sonhos dourados.

Parabéns, Tom, por levar suas canções e mensagens além dos palcos. Soube que toca em asilos, em hospitais indo de leito em leito, para populações carcerárias e de rua. Parabéns pela opção sua.

Alguém poderia pensar: um artista assim, por que o Universo não conspira e não o joga nas alturas da Grande Mídia? Respondo. Quem diz que isso é o melhor para ele e para o mundo? O Tom não parece preocupado com colher; mas sim com plantar.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

SINFONIA



Vista de cima
A terra é pauta
Os rios, linhas
Do pentagrama

Tem clave de sol
Tem clave de céu
Tem clave de lua

Árvores, flores
E bolinhas
De sabão
Dos meninos
São notas

Música e tempo
No agora
Interligados
As pedras
São pausas

Executa-se
A canção
Ventos
Cachoeira
Trovão

Dó não há
Há esperança
Ré também não tem
Só se avança

Mi tem
Fá não,
Mas faz, sim
Sol tem demais

Lá também tem
Lá, aqui, acola

Si tem que ter
Se tem Mi
Tem que ter Si
Nada de olhar
Só o próprio nariz

Os pássaros
O auge
Da sinfonia
O tom
O solo
Da natureza