segunda-feira, 30 de maio de 2016

Doce

Mamãe diz para eu moer café. Eu protesto, mas vou. Como sempre. Deixo o cachorro Jaú, que abana a cauda querendo brincar mais. Ouço o cocoricado gargalhado das galinhas como rissem de mim. Pego duas medidas (com uma cuinha) de café torrado na lata com desenho de passarinhos. Despejo. Meu braço põe força no giro. Vou olhando os grãos descendo pelo copinho do moinho como num sumidouro. Aquele barulho triturado, crepitante. Os grãos sumidos reaparecem pó. Eu canso. Paro. Um vento zoando, zoando faz barulho de cachoeira nas pereiras dos lados do Antônio Rocha. As galinhas se assustam, correm. Vai chover, mamãe diz. Papai concorda. Começo a girar novamente com o outro braço. Mamãe reclama que não gosta de galinhas brancas. Porque são vistas de longe pelo gavião. Papai sorri da implicância dela. Meu outro braço começa a doer também. Diminuo a velocidade. A repetição, por menor que seja, enfada a gente. Mamãe grita: já acabou menino. Acelero. O cheiro se alastrando pela cozinha. Dou pela correria atrapalhada de mamãe e papai guardando coisas. Eles riem porque o Jaú achando que papai brincava trançou-se entre as pernas dele. Papai quase caiu. Certamente o riso fácil era pela chuva que vinha. Principalmente depois de uma estiagem, na roça chuva é benção. Caía cada pingão. Espiei para os lados do pomar. Tudo cinza, riscado. O Jaú se protegia embaixo do chuchuzeiro. Orelhas relaxadas. Traseiro no chão e o resto do corpo levantado. Eu assoviei. Ele agitou o rabo, arrebitou as orelhas. Mamãe gritou: pronto menino. O gato ali na cozinha comigo parecendo hipnotizado com a chuva, assustou-se com mamãe. Pulou da taipa do fogão. Cheiro de pó de café, de terra molhada. Ah, a doce infância na roça.  

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