segunda-feira, 15 de maio de 2017

CHARRETE

A Crenilda nem deve se recordar
Morava ainda na Fazenda
Ia a pé com seu pai Tião à Consolação
Ao que passávamos por eles
Naquela nossa charrete cor de creme
Com molas, pneus e buzina
Meu pai ofereceu carona
Ela foi sentada comigo, lá atrás
Nós dois de costas para o cavalo
(O Tião ficou para trás. Ela fez tchau, tchau)
Fomos nos divertindo vendo o chão correr
Abaixo de nossos pés
(Meu pai foi buzinando a buzina
Para nos alegrar
A Crenilda ria, ria, de orelha a orelha)
Quando chegamos em Consolação
Na casa do Grego o Tião Cirino já nos esperava
Não percebemos. Alguém passou de carro
E o levou. Ele foi brincar com a Crenilda
Como a dizer cheguei primeiro. Cheguei primeiro
Ela, com seriedade além da idade, fazendo
Fusquinha disse: charrete é muito mais gostoso
Fiquei pensando...
Até hoje acho que ela estava certa

Sementes

Se encontrasse aquele meu velho amigo
Abraçá-lo-ia como não houvesse passado o tempo
O chamaria para um vinho lá em casa comigo
Falaríamos de antigamente quando tudo era sonho

Mais tarde, bêbados e enfadados das novidades
Decerto eu tentaria convencê-lo de que
Nem só com marretas e pedras se constrói
Falaria da força da poesia com suas
Sementes de orvalho da manhã

Quem sabe ele se convencesse e então acriançados
Notaríamos em silêncio o horizonte acima das neblinas
Cada um imaginando um futuro de mil possibilidades
Impressionados com as tantas coisas ocultas

DESENCONTRO

Quando chego
Quero seu abraço
Você vem falar
Da porta estragada
Eu me calo
Você quer saber
Por que sou sempre
Tão irritado


domingo, 14 de maio de 2017

A FOTO


A foto.
Ah, a foto.
Ainda que desbotada
Está lá
Exibindo,
Arregalada
Algo que deveria
Apenas ter ficado
Na memória dos
Que vivenciaram
O fato.
E mesmo assim
Até que não
Se desbotasse
Aterrado pelo
Calor dos novos
Acontecimentos.
Que prazer
Sádico
Da foto.
Escancarando-nos
Para sempre
Como era
Antes que a acidez
Do futuro
Houvesse corroído
Muito.

terça-feira, 9 de maio de 2017

amigos

É prazeroso o convívio com os amigos. Gente igual à gente. E falamos, e falamos, e sorrimos. Tem acontecido, tem inventado. Causos mais de cem vezes contados. Tem vez passam com pressa, estão sem tempo. Mas mesmo assim há uma palavrinha. Como vai a família. Se fiquei sabendo da última varada daquel’outro nosso amigo. Quando vemos um amigo, um portal abre-se em nós. E então nos boiam histórias. Vivos, vem a ardência, o viço, os  cheiros de outras épocas. Às vezes pedimos segredo. Mas aí já sabem, né. O amigo tem outros amigos. Não segura. Tem gente que fala, fala, fala e não conseguimos escutar. Mas o amigo nem precisa falar. Ao vê-lo já entendemos  tudo. E tem também que para os amigos não precisamos nos esconder atrás de falsos sorrisos. Depois de algum tempo às vezes eles vêm com papo de mudar de rumo. Aí se despedem, se emocionam, fazem drama. Como fossem para outro mundo. Balela. Se são amigos, mesmo que se vão, logo adiante já estaremos  juntos outra vez. Para que se refaça a amizade jamais perdida. 


segunda-feira, 8 de maio de 2017

VIAGEM

Que viagem
Que viagem
Que divertido
Eu dirigindo

Vrroummm
Vrroummm
Vrrrrrooooo
Uuhh

Bibiiii
Bibiiii
Sai vaca

Eu no pedal
Da máquina
De costura
De minha mãe

É a melhor
Viagem do
Mundo

Tem até bagageiro
Uma barriguinha
Com um furo
Embaixo

Tchau, mãe
Tchau, mãe

Girando girando
Aquele volante
Vou de Consolação
À Aparecida
Num instante

Até lembrança
Para à mamãe
Eu trago

Um lenço
Bem colorido
Lindo

(Buscado
Às barracas
Dos camelôs
Do baú de retalhos
Do lado da máquina)

Vrroummm
Vrroummm
Bibiiii

Sai passarinho

quinta-feira, 4 de maio de 2017

OLHAR

Ele me olhou fixamente Olhos tão expressivos Sem palavras eu senti Agradecimento, amizade Felicidade. Até um fundinho De tristeza resignada Fiquei mesmo muito tocado Por sentir que era a mesma A nossa natureza Que vínhamos Da mesma energia Abracei-o fraternalmente Seguimos assim por um tempo Naquela tardinha à varanda Olhando a chuva Eu e meu cão

segunda-feira, 1 de maio de 2017

MOÇA

Oh, moça. Você acha
Que a nós, seus amigos
A vida deu horas melhores

Não deu, moça. Você põe meia
Noite tempestuosa em pleno
Meio dia florido. É mestra nisso

Talvez o que lhe falte, moça
Não são melhores horas
Mas sim melhores olhos
Para bem notar as flores
Que estrelam seu jardim

Abre as cortinas cinzas, moça
Poe florzinhas às janelas
Deixa a luz do sol entrar para
Dissolver essas sombras
Que põe em você olhar duro