sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

PRECIPÍCIOS

Eles me olham
Olhar duro
Certeza da minha chatice
Pela minha ruga

Acham esquisito
Que eu desvie o olhar
Então me desprezam
Sujeito estranho

...
Não sabem dos meus Precipícios
...
...

O curioso é perceber que
Também julgo a quem vejo
E assim vamos nós
Tão próximos, tão distantes

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

docinho de leite

Ontem aquela moça me disse
Que sentir saudade é rejeitar o presente
Como afirmá-lo sem graça e brilho
Que melhor seria que não tivesse vindo

Observei que eu não entendia assim
Que a saudade boa não é refúgio
Mas sim flor antiga que perfuma até hoje
Uma brasinha que aquece a qualquer tempo
Um docinho de leite cujo dulçor não acaba nunca

Isso acrescenta a instabilidade do presente
Uma constante sensação de gravidez que
Não sabemos se vai acabar em carinho ou soco
Um “não sei onde vai dar” que o que tem
De bonito tem de assustador

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Contramão

Esse negócio
De Ano Novo...
Sinto certa
Fome por esses dias
Mas não encontro
Muito alimento
O ralo aguado
Dumas frases
Todos em Hollywood
Uma barulheira
Sem propósito
Isso de repensar
É positivo
Mas é tão improvável
Que mudemos
Qualquer coisa
Sigo entediado
Desconfortado
Desajustado
Acho que me
Fez falta o encontro
De didiano na 
Casa da vó Gelia


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O tempo

Da minha janela
Vou notando
A grávida de
Um dia desses
Já está com
O filho grande
O porteiro um
Pouco grisalho
Quando cheguei
Está com os cabelos
Branquinhos
A casa verde tão
Bem pintada
Já precisa de
Tinta outra vez
Aquele idoso que
Sai com o cachorrinho
Não veio hoje
Será que esta bem
A minha esposa diz
Deixa esta janela
Eu não queria deixar

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

DIA DE LIDA

Pintura Tulio Dias
Oi comadre
Bom dia compadre
Sua benção madrinha
Gente chegando
Ah, as lidas de porco
Trabalheira louca

Um tranco na testa
Taum
O bicho meio tonto
A peixeira ao sovaco
Aí vinha aquele guincho
Que eu não gostava
                   
Sapecado a galhas
A suã tiravam primeiro
Era ainda cedo
Mas já pensavam
Na comida do almoço

O toucinho cortado
Era moído em tiras
Para máxima gordura
Senão sobravam
Aqueles torresmos que
Enjoam a gente

Os pedaços murciços
Eram cortados e picados
Tadeu afia essa faca
Que não tá cortando
Nem água homem

Os pedaços de segunda
Iam para a linguiça
Os de primeira
Ao tacho de gordura quente

Mexe o tacho menino
Não põe muito fogo não menina
Até a criançada trabalhava
Perto de fogo e gordura
Nunca ninguém se machucou
De ruim só o calorão

A gordura cobria a carne
Fritavam em fogo baixo
Até sair água todinha
Pois para de borbulhar

Pernil, lombo
Costelinha
Então se punha à lata
E cobria de gordura
Uma manteiga

Da pele se fazia aquelas
Tirinhas para pururuca
Secava-se ao forno e
Depois se fritava até
Revirar como pipoca

Duas latas de carne
E três de gordura
Ainda os restos
Para sabão de cinza

Além dos pedacinhos
À vizinhança lógico
Tia Tereza Tia Elza,
Titininha Elenice Madrinha.
                                                                                                          
Hoje se ver essa “carnificina”
É perigoso até adulto passar mal
Mas aquele tempo era tão natural

Um tempo de simplicidade
De um povo ao fim do dia suado
E feliz Pelo prazer de achar
Que mandava no mundo               

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Ti A-Z Lha

***
Morreu a sua tia
Ligou mamãe e disse
Fiquei pensando
Que triste que triste
***
Fechei os olhos
Buscando a mente
Passagens com tia
Aquele jeito doce
***
Histórias de família
Coisas da infância
Os bolinhos de chuva
A voz mansa mansa
***
Da última vez
Ela falava da roça
Atravessando falas
Ao tio com suas onças
***
Ela dizia e sorria
Brilhavam seus olhos
Depois foi à cozinha
Fez café e bolinhos
***
Como entender
Não sou tão forte
Tão meiga, a tia
Que Deus nos conforte
****

sábado, 25 de novembro de 2017

confuso

De onde venho
Eu sabia direitinho
De onde vinha
A chuva
Onde o sol
Se punha
Onde nascia
O Cruzeiro do Sul
Aqui nunca sei
Das chuvas
O sol mal vejo
E Cruzeiro do Sul
Receio nem haja

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

TRAVESSEIRO VELHO

Falaram do meu travesseiro
Que era velho e deformado
Apareceram com um novo
Jogaram o velho fora
Ah, mas que vacilo
Eu pousava a cabeça
Aí por baixo meio
Dobrando uma ponta
Eu o punha à altura que queria
Esse novo começa alto
Digo alto demais
Depois vai sumindo, sumindo
E tem que não aceita
Ajeitamento algum
Essa mania do povo 
De achar melhor o novo
Ah, que saudade do meu
Travesseiro velho

terça-feira, 14 de novembro de 2017

cor de céu

Disse o médico
Por que só agora
Trouxeram o menino
E correu correu comigo

Mas logo eu ia bem
Falaram do remédio
Do médico também
Mas não entenderam

Papai saiu triste
Viu à vitrine
Uma caminhonetinha azul
Comprou-a para mim
Uns faroizinhos vermelhos
Que giravam e tudo

Na cama ele fez trilhas
Amassando lençóis
Mamãe chegou
Brincávamos nós

Eu sentado
Caminhonetinha a mão
Papai acriançado
Fazendo vrroummm 
Vrroummm

Tinha aquilo de presente
Fora de Natal
Mas o principal
Era sentir 
Papai preocupado
Comigo

A Caminhonetinha
Cor de céu
Era materialização
De carinho

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Espia

O rio passa
longe longe
Espia a cidade
Lá em cima

Sempre escuta
que ela lembra
Um presépio
E parece mesmo

O rio espia espia
Será falta algo
Àquele povo
Pensa o rio
Duvida

Tinha vontade
De ser gente
Por um só dia
Se faria mascate
Iria lá
Olharia olharia