sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Espia

O rio passa
longe longe
Espia a cidade
Lá em cima

Sempre escuta
que ela lembra
Um presépio
E parece mesmo

O rio espia espia
Será falta algo
Àquele povo
Pensa o rio
Duvida

Tinha vontade
De ser gente
Por um só dia
Se faria mascate
Iria lá
Olharia olharia

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Inex

A água da chuva caiu sorrindo no bueiro, isso porque passou sobre um jornal e leu na previsão do tempo que não iria chover. O jornal nem se importou com o deboche, mais preocupado pela roda da carroça haver lhe levado um pedaço. Inexorável virou inex. Inex com xis, o que vão pensar...

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

DIZ QUE É AMIGO

Falou em solidariedade
Que gostava de mim
Que contasse com ele
Mas o tom da fala
As expressões faciais
As bolinhas das narinas
Se agigantando
Negavam tudo 

sábado, 30 de setembro de 2017

não combina

não entendo
a palavra “feio”
... não é feia
se parece com
veio, cheio, seio
é corrente, clara
de vogais é farta
e na sequência
tirando-se
os extremos
o “a” e o “u”
...“e”...“i” ...“o”
feia é a palavra álacre
não me agrado dela
lembra lacre, ocre
é meio ácida
... podre


domingo, 17 de setembro de 2017

Na Lua

No metrô
Pessoas
Mais velhas
Em pé

(Em pé
Também
Eu vou)

Vaga um
Assento
Bem ao
Lado meu

Eu olho
Para os
Mais velhos

Vem um
Moleque
Duns
Dezessete

Assenta-se
Fone de ouvido
Batucando
O peito

Alienado

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

PERALTICE

Quando Deus pintava o mundo
Pediu ajuda aos anjos
Indicou-lhes as tintas
Permitidas

Foi avisando que algumas
Eram reservadas
Apenas ao Paraíso

Quando Deus acordou 
De um cochilo
De depois do almoço
Um susto

Topou com certo anjo
Já com o pincel imergido
Numa lata das
Tintas proibidas

Deus ralhou com o anjo
Tomou a tinta dele
Mas o anjo ficou com o pincel
Encharcado da tinta

O anjo, então, ido Deus
Como fosse padre aspergindo
Água benta sobre o povo
Entrou a aspergir da tinta
No céu da noite

Deus quando viu 
Sorriu em segredo
Que peraltice daquele
Seu filhinho
Mas até que gostou

Foi assim que o céu da noite
Acabou salpicado do
Que chamamos estrelas

domingo, 10 de setembro de 2017

Liberdade

O Lelinho presenteou-me
Com uma gaiola e
Um pixarro
Minha irmã sem
Querer derrubou
A gaiola no quarto
Voou, voou o pixarro
Aconteceu o que
Eu queria, mas tinha
Ânimo fraco

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Igual cachorro de mendigo

O morador de rua
Grita com seu cão
Sai, vai embora
Não quero cão

Diz meio chorado
Atirando pedras invisíveis
O cão se agita, se agita
Mas não o deixa

Comento com uma
Senhorinha que comigo
Assiste a cena

O cão não vai
Porque não
Entende palavras
O sujeito não
Quer na verdade
Que o cão parta

Parece triste
É consigo mesmo
Quem sabe achando
Que não mereça
Nem a amizade do cão

A senhorinha
Olha-me francamente
Diz, séria

Acho que está certo
Você parece ter boa capacidade
Para compreender
As fragilidades humanas

Dá dó de quem
Tem esse dom
(Ela ri um riso triste)
Sofre igual cachorro
De mendigo

domingo, 13 de agosto de 2017

Inquietação

Hoje, pai
Entendo o senhor
Esse jeito mais quieto
Essa disposição
Para o trabalho

Um vazio
Que se acalma
Apenas ante 
A certeza
De que se fez
Tudo que
Se podia

Falar, explicar
Dá muito trabalho
Escrever então
Nem se diga

O mundo, pai
Sei, não precisa
De tanta conversa
Mas sim de gente
Que efetivamente
Faça

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

REALCE

“Não nos deixei cair em tentação
Mas livrai-nos do mal”
Nos meus mais verdes dias
Parece eu sentia
Haver erro nessa frase
Esse “mas” soava estranho, esquisto
Como eu pedisse para não cair
Mas que não doesse
Se não caio, por que doeria?
Depois, mais maduro, entendi
Se caio em tentação, o que me vem
É correção
Já o mal é diverso
É aquilo que me vem sem eu merecer
Se temos o livre-arbítrio
Podemos também atentar
Versus alguém que não mereça
Então esse “mas” não é mas
De oposição ou restrição
É realce