sábado, 7 de julho de 2018

Incansável


Ele gosta de mudanças
Embora finja que não
Destrói construindo em cima
É impiedoso é inquieto
Se faz respeitoso
Quando altera aos pouquinhos
Disfarçado, sorrateiro, insosso
Não sei das razões dele
Além da vaidade de querer
Sempre deixar sua marca
Não me conformo que tenha
Dado fim aquele casarão verde
Da minha infância
Falo do PRESENTE, lógico
Se eu chegasse à minha avó
Àquela tarde em que ela parou
Com o terço e veio me servir
Café com bolo de fubá
Enquanto o canarinho
Cantava a janela
E dissesse que aquilo tudo
Ela, a casa, o café, o bolo,
O bule, a janela, o canarinho
Seria destruído
Ela riria de mim
Falaria lógico que sim
Mas um lógico meio
Não acreditando
Como fosse algo dali
Há dois milhões anos
Não demorou um isso
É o Incansável já encheu
Ali de coisas novas
Coisas das quais foi
Logo enjoando e já
Trocando por coisas
Mais novas ainda
Ele não sossega
Ele não se apega
Ele é um trator...

segunda-feira, 18 de junho de 2018

OSSO


Passo perto da igreja
Pouca gente no
Carrinho de lanche
A cidade parada
A música de balada
Parece fora do contexto
Desligo o radio
No peito certa sensação
De já comi toda a barra
De chocolate
Na agenda mental
Certa confusão
Um trechinho da música
Fica preso a minha mente
Naquilo que chamam
Síndrome da canção
Aprisionada
E isso incomoda mais ainda
Como se eu insistisse
Amor com um defunto
Tenho que arrumar a
Torneira pingando
Pagar o condomínio
Trocar a lâmpada
Da área de serviço
Levar o carro
No mecânico para tirar
Esse barulho
Marcar cardiologista
Iniciar a dieta
Melhor escrever tudo
Esse trechinho da música
Repetindo infinitamente
Me insulta
Domingo a noite é osso

sábado, 2 de junho de 2018

os dois bobinhos


o mais esperto e arguto dos homens
não é tão mais arguto e esperto
do que o mais parvo dos homens
isso porque ambos estão igualmente
limitados ao bobinho mundo dos homens
Aquele que tem esse tiquinho de nada
que mal sabemos pelo todo

domingo, 13 de maio de 2018

DESACORDO

As funduras
do meu peito

a coruja pia
a coruja pia

"não tem jeito"
"não tem jeito"

tem...
tem...
tem..

estridente
discorda o sapo
martelo

sábado, 12 de maio de 2018

Pedro Manezinho


Pedro Manezinho
Um adulto, menino
Gostava de brincadeiras
E liberdades
Em seu carro
De tábua que
Ninguém precisava
Empurrar
Meio andarilho
Meio mago
Vivia de pequenos carretos
Como de lenha buscadas
Às redondezas
Quer lenha hoje, D. Tereza
Uso gás agora, Pedro
Sim senhora
Faço carreto de gás também
Ele sempre dizia
"Oh, meu Deus,
Espera que vem!"
“Espera que vem!"
Olhava para o céu
A caridade alheia
Sempre o ajudou muito
Decerto era um enviado
Pra dar as pessoas
A oportunidade
Da caridade
Meu avô Lazo Doca dizia
Que sempre quando dava
ao Pedro um prato de comida
Algo bom lhe vinha
Eu via o Pedro com magia
Pelos meus olhos de criança
Viva o Pedro
Viva as crianças
Viva os humildes

segunda-feira, 23 de abril de 2018

do outro lado do espelho


manhãs frias
fogão a lenha
café quente
bolão de fubá
***
ah, era um tempo
sem pressa
sólido, eterno
seguro, descampado
**
eu crescia, crescia
não sabia
que um pouco
de mim já morria
*
ia para o céu
das lembranças
esfumadas
do outro
lado do espelho

sábado, 21 de abril de 2018

Não quero a equação


tem umas coisas que não entendo direito
aliás, muitas coisas eu não entendo direito
e tem que muitas coisas nem quero entender
não porque ame a ignorância mas é que na ausência
de razão tem um lado meu que decide as coisas
decide em outras bases, com outras referências
é um lado intuitivo, compreensivo, carinhoso
que convida, que aceita. Aceita não porque entende
aceita porque sabe das coisas atrapalhadas na mente
da gente impulsionando comportamentos e atitudes
sinto arrepio de morte com esses defensores
do jeito único com seus livros debaixo dos braços
liberdade tem a ver com sentir e não entender
às vezes o entender demais desbota o sentir
não quero a equação matemática da passarada
cantando debaixo do céu alaranjado da aurora
quando um irmãozinho fizer algo reprovável aos
olhos dos apontadores de dedo quero sentir por
ele uma ternura de formiga, de orvalho da manhã


sexta-feira, 6 de abril de 2018

aguardo

o passarinho
na gaiola
adormece na
esperança
de que no novo
dia voará

no novo dia
ele canta
percebe que
ainda não chegou
o momento
mas já sonha
com o dia
seguinte

ele vê homens
ouve gritos
mas prefere
ver flores
os pássaros
livres

assim pinta
seu dias
achando que a
justiça é
igual pra todos

sorte a dele
não perder o sono
assim não
vê os fantasmas
das escuridões

sexta-feira, 30 de março de 2018

ABISMO

Sempre gostei do canto dos pássaros
mas hoje me parecem tristes
aqueles nós por dentro, eu tenso
sabia desse momento faz tempo
mas agora que se aproxima
algo em mim se apequenina
pai, será não se enganou comigo
não é possível que sou tanto
esse silêncio... não estou seguro
ouço um tropel, me assusto
é só vento, e só o vento
pai, será não se enganou comigo
algo me corta e algo já morre
que amargor, pai, que enjoo
já ouço os sinos, já ouço os sinos
pai, será não se enganou comigo
tanta gente nesse mundo
será tem que ser comigo?
não é possível que sou tanto

quinta-feira, 29 de março de 2018

CEGUEIRA DAS AUSÊNCIAS

Uma inabalável fé no futuro
Naqueles dias primeiros
O mundo se acomodaria
Em séculos e séculos de calmaria
Mas não se sabe quando
Veio a neblina, foi se alargando 
Neblina daquelas que a gente 
Tem por dentro e borra tudo 
E o céu se fechou pra chuva
E teve também que um filtro 
Desligou dos olhos o colorido
O extremado cochichou: acabou
Ainda uma resteazinha pos
A força dum pouco avançar
Mas com o cinza, pouco se podia
E na cegueira das ausências
Houve o mergulho sem volta
O mergulho que apaga
Que não aceita mudança de ideias
Que cumpre a ordem