segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Igual cachorro de mendigo

O morador de rua
Grita com seu cão
Sai, vai embora
Não quero cão

Diz meio chorado
Atirando pedras invisíveis
O cão se agita, se agita
Mas não o deixa

Comento com uma
Senhorinha que comigo
Assiste a cena

O cão não vai
Porque não
Entende palavras
O sujeito não
Quer na verdade
Que o cão parta

Parece triste
É consigo mesmo
Quem sabe achando
Que não mereça
Nem a amizade do cão

A senhorinha
Olha-me francamente
Diz, séria

Acho que está certo
Você parece ter boa capacidade
Para compreender
As fragilidades humanas

Dá dó de quem
Tem esse dom
(Ela ri um riso triste)
Sofre igual cachorro
De mendigo

domingo, 13 de agosto de 2017

Inquietação

Hoje, pai
Entendo o senhor
Esse jeito mais quieto
Essa disposição
Para o trabalho

Um vazio
Que se acalma
Apenas ante 
A certeza
De que se fez
Tudo que
Se podia

Falar, explicar
Dá muito trabalho
Escrever então
Nem se diga

O mundo, pai
Sei, não precisa
De tanta conversa
Mas sim de gente
Que efetivamente
Faça

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

REALCE

“Não nos deixei cair em tentação
Mas livrai-nos do mal”
Nos meus mais verdes dias
Parece eu sentia
Haver erro nessa frase
Esse “mas” soava estranho, esquisto
Como eu pedisse para não cair
Mas que não doesse
Se não caio, por que doeria?
Depois, mais maduro, entendi
Se caio em tentação, o que me vem
É correção
Já o mal é diverso
É aquilo que me vem sem eu merecer
Se temos o livre-arbítrio
Podemos também atentar
Versus alguém que não mereça
Então esse “mas” não é mas
De oposição ou restrição
É realce

domingo, 30 de julho de 2017

Palavra que Cala

Meu pai diz
(Sobre a homilia)
Que gosta daquela
Palavra que cala
Que paradoxo (lindo)
Palavra que cala
Uma fagulha
Àquela fundura
Mais recôndita
Algo doce, macio
Ao mais fundo íntimo
De onde futilidades
Estão distantes
Palavra que queima
Que desbasta
Que acomoda
(Que incomoda)
Que fica

sexta-feira, 14 de julho de 2017

ARREPIO

A renda
A renda
Eu me rendo
Voa murcha
A camisola
A pele
Arrepia

sexta-feira, 30 de junho de 2017

caminhos



Dos teus caminhos
A certeza da firmeza
Mas ao fim dos degraus
O calor capaz de incêndios

domingo, 25 de junho de 2017

INTRAGÁVEL

Redemunhos
Beiram
Meus pomares
E das trincas
Do meu eu
Sai algo lento
Que tento
Por em texto
Então mexo
Mexo
Não acho
O ponto
Me atrapalho
Paspalho
O caldo
Bem longe
Do que se
Esconde
Às trincas
Do meu eu
Pois margaridas
Saídas dos
Meus olhos
Sugerem
Passarinhos
Que sei
Não são
Reais
Apenas
Virais
Que viabilizam
O Intragável

sábado, 24 de junho de 2017

FIEL

Ele não trai
Não porque seja regra
Mas porque admira e
Gosta da dedicação dela
Do jeito que
Conduz as coisas
Do acordar sempre igual
Dela preparando os pratos
Da colher cheia
Para ele experimentar
Ele adora
Ele ama
O jeito sempre
Leve e alegre
Tem que se a trai
Joga fora que é
Mais respeitado
Em sua família
Por estar com
Uma pessoa seria
Joga fora o seu
Relacionamento
Com a família dela
Um povo tão bom
Mas não é por isso
Não trai porque
Ela não merece
Não trai porque não
Quer entristecer e
Nem perder a mulher
Que lhe faz tanto bem

SALVEM

o mar bate
embarcações
como gente
a pernilongos

Tapas, trancos
Safanões

homens perdidos
nas embarcações
Estapeadas
pelo mar

salvem as baleias
salvem os cachorrinhos
salvem os homens

sábado, 17 de junho de 2017

ENTRETIDO

Nuvens brancas Espumas macias Vão à força Suave das brisas Quase as como E gosto São doces Acho Agita-se a rama Equilibra-se a sabiá E eu olho olho olho Pipa sem linha Meu pensamento Sem rota Sem rumo Sem reta Entretido Não sinto Passar o tempo Gastando a vida Notando as espumas Do canto Dos céus Dos loucos