domingo, 13 de maio de 2018

DESACORDO

As funduras
do meu peito

a coruja pia
a coruja pia

"não tem jeito"
"não tem jeito"

tem...
tem...
tem..

estridente
discorda o sapo
martelo

sábado, 12 de maio de 2018

Pedro Manezinho


Pedro Manezinho
Um adulto, menino
Gostava de brincadeiras
E liberdades
Em seu carro
De tábua que
Ninguém precisava
Empurrar
Meio andarilho
Meio mago
Vivia de pequenos carretos
Como de lenha buscadas
Às redondezas
Quer lenha hoje, D. Tereza
Uso gás agora, Pedro
Sim senhora
Faço carreto de gás também
Ele sempre dizia
"Oh, meu Deus,
Espera que vem!"
“Espera que vem!"
Olhava para o céu
A caridade alheia
Sempre o ajudou muito
Decerto era um enviado
Pra dar as pessoas
A oportunidade
Da caridade
Meu avô Lazo Doca dizia
Que sempre quando dava
ao Pedro um prato de comida
Algo bom lhe vinha
Eu via o Pedro com magia
Pelos meus olhos de criança
Viva o Pedro
Viva as crianças
Viva os humildes

segunda-feira, 23 de abril de 2018

do outro lado do espelho


manhãs frias
fogão a lenha
café quente
bolão de fubá
***
ah, era um tempo
sem pressa
sólido, eterno
seguro, descampado
**
eu crescia, crescia
não sabia
que um pouco
de mim já morria
*
ia para o céu
das lembranças
esfumadas
do outro
lado do espelho

sábado, 21 de abril de 2018

Não quero a equação


tem umas coisas que não entendo direito
aliás, muitas coisas eu não entendo direito
e tem que muitas coisas nem quero entender
não porque ame a ignorância mas é que na ausência
de razão tem um lado meu que decide as coisas
decide em outras bases, com outras referências
é um lado intuitivo, compreensivo, carinhoso
que convida, que aceita. Aceita não porque entende
aceita porque sabe das coisas atrapalhadas na mente
da gente impulsionando comportamentos e atitudes
sinto arrepio de morte com esses defensores
do jeito único com seus livros debaixo dos braços
liberdade tem a ver com sentir e não entender
às vezes o entender demais desbota o sentir
não quero a equação matemática da passarada
cantando debaixo do céu alaranjado da aurora
quando um irmãozinho fizer algo reprovável aos
olhos dos apontadores de dedo quero sentir por
ele uma ternura de formiga, de orvalho da manhã


sexta-feira, 6 de abril de 2018

aguardo

o passarinho
na gaiola
adormece na
esperança
de que no novo
dia voará

no novo dia
ele canta
percebe que
ainda não chegou
o momento
mas já sonha
com o dia
seguinte

ele vê homens
ouve gritos
mas prefere
ver flores
os pássaros
livres

assim pinta
seu dias
achando que a
justiça é
igual pra todos

sorte a dele
não perder o sono
assim não
vê os fantasmas
das escuridões

sexta-feira, 30 de março de 2018

ABISMO

Sempre gostei do canto dos pássaros
mas hoje me parecem tristes
aqueles nós por dentro, eu tenso
sabia desse momento faz tempo
mas agora que se aproxima
algo em mim se apequenina
pai, será não se enganou comigo
não é possível que sou tanto
esse silêncio... não estou seguro
ouço um tropel, me assusto
é só vento, e só o vento
pai, será não se enganou comigo
algo me corta e algo já morre
que amargor, pai, que enjoo
já ouço os sinos, já ouço os sinos
pai, será não se enganou comigo
tanta gente nesse mundo
será tem que ser comigo?
não é possível que sou tanto

quinta-feira, 29 de março de 2018

CEGUEIRA DAS AUSÊNCIAS

Uma inabalável fé no futuro
Naqueles dias primeiros
O mundo se acomodaria
Em séculos e séculos de calmaria
Mas não se sabe quando
Veio a neblina, foi se alargando 
Neblina daquelas que a gente 
Tem por dentro e borra tudo 
E o céu se fechou pra chuva
E teve também que um filtro 
Desligou dos olhos o colorido
O extremado cochichou: acabou
Ainda uma resteazinha pos
A força dum pouco avançar
Mas com o cinza, pouco se podia
E na cegueira das ausências
Houve o mergulho sem volta
O mergulho que apaga
Que não aceita mudança de ideias
Que cumpre a ordem

sábado, 24 de março de 2018

MOMENTOS

Irei à Consolação
Semana que vem
Já faz mês que não vou
A casa de mamãe

O pai falará da roça
A mãe entrará no meio
Ele reclamará: deixa
Eu contar do meu jeito

Jantarei demais
Comerei sem medo
Terei o melhor sono
Dormirei cedo

É possível que acorde
Pela alta madruga
Ouvirei a brisa, o sino
E cães virando latas

Pela manhã despertarei
Com o cheiro de café
Darei graças. Sei que nem
Sempre tudo será como é


CRESCER

A gente nasce, cresce
Compra uma camisa xadrez
Às vezes viaja de ônibus
Tem saudade, dias ruins

Às vezes ficamos tristes
Por uma resposta malcriada
Que recebemos

É irreversível
Temos que crescer
Um crescer para dentro
Que reencontra
Meninos

Que são felizes
E fazem as pazes
Enroscando
Dedinhos em anzol

quinta-feira, 15 de março de 2018

Lambaris

Onze lambaris
Na cesta de bambu
Brilham os lambaris
Brilham os lambaris

Empunho minha vara
Canta o corguinho
Perto da casa
Da Titininha

Corre a linha
Corre a linha
Puxo outro
Lambari

De repente
Chia o vento
Chia o vento
Muda o tempo

Ou é chuva
Que vem
Ou conspira
Alguém

Pra que eu
Deixe em paz
Os lambaris
De que não
Preciso mais

Brilham os lambaris
Brilham os lambaris
São doze lambaris
Melhor eu ir

Treze não
É bom número
E amanhã quero
Pescar outra vez

Vamos Rex
Vamos rapaz