domingo, 17 de setembro de 2017

Na Lua

No metrô
Pessoas
Mais velhas
Em pé

(Em pé
Também
Eu vou)

Vaga um
Assento
Bem ao
Lado meu

Eu olho
Para os
Mais velhos

Vem um
Moleque
Duns
Dezessete

Assenta-se
Fone de ouvido
Batucando
O peito

Alienado

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

PERALTICE

Quando Deus pintava o mundo
Pediu ajuda aos anjos
Indicou-lhes as tintas
Permitidas

Foi avisando que algumas
Eram reservadas
Apenas ao Paraíso

Quando Deus acordou 
De um cochilo
De depois do almoço
Um susto

Topou com certo anjo
Já com o pincel imergido
Numa lata das
Tintas proibidas

Deus ralhou com o anjo
Tomou a tinta dele
Mas o anjo ficou com o pincel
Encharcado da tinta

O anjo, então, ido Deus
Como fosse padre aspergindo
Água benta sobre o povo
Entrou a aspergir da tinta
No céu da noite

Deus quando viu 
Sorriu em segredo
Que peraltice daquele
Seu filhinho
Mas até que gostou

Foi assim que o céu da noite
Acabou salpicado do
Que chamamos estrelas

domingo, 10 de setembro de 2017

Liberdade

O Lelinho presenteou-me
Com uma gaiola e
Um pixarro
Minha irmã sem
Querer derrubou
A gaiola no quarto
Voou, voou o pixarro
Aconteceu o que
Eu queria, mas tinha
Ânimo fraco

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Igual cachorro de mendigo

O morador de rua
Grita com seu cão
Sai, vai embora
Não quero cão

Diz meio chorado
Atirando pedras invisíveis
O cão se agita, se agita
Mas não o deixa

Comento com uma
Senhorinha que comigo
Assiste a cena

O cão não vai
Porque não
Entende palavras
O sujeito não
Quer na verdade
Que o cão parta

Parece triste
É consigo mesmo
Quem sabe achando
Que não mereça
Nem a amizade do cão

A senhorinha
Olha-me francamente
Diz, séria

Acho que está certo
Você parece ter boa capacidade
Para compreender
As fragilidades humanas

Dá dó de quem
Tem esse dom
(Ela ri um riso triste)
Sofre igual cachorro
De mendigo

domingo, 13 de agosto de 2017

Inquietação

Hoje, pai
Entendo o senhor
Esse jeito mais quieto
Essa disposição
Para o trabalho

Um vazio
Que se acalma
Apenas ante 
A certeza
De que se fez
Tudo que
Se podia

Falar, explicar
Dá muito trabalho
Escrever então
Nem se diga

O mundo, pai
Sei, não precisa
De tanta conversa
Mas sim de gente
Que efetivamente
Faça

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

REALCE

“Não nos deixei cair em tentação
Mas livrai-nos do mal”
Nos meus mais verdes dias
Parece eu sentia
Haver erro nessa frase
Esse “mas” soava estranho, esquisto
Como eu pedisse para não cair
Mas que não doesse
Se não caio, por que doeria?
Depois, mais maduro, entendi
Se caio em tentação, o que me vem
É correção
Já o mal é diverso
É aquilo que me vem sem eu merecer
Se temos o livre-arbítrio
Podemos também atentar
Versus alguém que não mereça
Então esse “mas” não é mas
De oposição ou restrição
É realce

domingo, 30 de julho de 2017

Palavra que Cala

Meu pai diz
(Sobre a homilia)
Que gosta daquela
Palavra que cala
Que paradoxo (lindo)
Palavra que cala
Uma fagulha
Àquela fundura
Mais recôndita
Algo doce, macio
Ao mais fundo íntimo
De onde futilidades
Estão distantes
Palavra que queima
Que desbasta
Que acomoda
(Que incomoda)
Que fica

sexta-feira, 14 de julho de 2017

ARREPIO

A renda
A renda
Eu me rendo
Voa murcha
A camisola
A pele
Arrepia

sexta-feira, 30 de junho de 2017

caminhos



Dos teus caminhos
A certeza da firmeza
Mas ao fim dos degraus
O calor capaz de incêndios

domingo, 25 de junho de 2017

INTRAGÁVEL

Redemunhos
Beiram
Meus pomares
E das trincas
Do meu eu
Sai algo lento
Que tento
Por em texto
Então mexo
Mexo
Não acho
O ponto
Me atrapalho
Paspalho
O caldo
Bem longe
Do que se
Esconde
Às trincas
Do meu eu
Pois margaridas
Saídas dos
Meus olhos
Sugerem
Passarinhos
Que sei
Não são
Reais
Apenas
Virais
Que viabilizam
O Intragável