sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

CINZA

A chuva cai
Tudo cinza
Cadê o céu
Que saudade do azul

As gotas cutucam
Cutucam
Eu não sei
Até quando
Essa chuva

Você que não vem
Se foi e disse
Que não voltaria
Eu não acreditei

Estou pronto para tentarmos de novo
Será algo novo e diferente
Se me der uma chance faremos tudo diferente
Você não se arrependerá...
Eu juro, juro, não se arrependerá
Meu empenho será máximo
Juro, juro... Tudo diferente...
Agora estou mais experiente

Se não chove
Aí onde está
Se aí há sol
Muito sol

Se está bom
Então fique
Aproveite
Viva bem

Mas se não
Se também lhe cai o cinza
Pensa bem
No que lhe falo

Estou pronto para tentarmos de novo
Será algo novo e diferente
Se me der uma chance faremos tudo diferente
Você não se arrependera...
Eu juro, juro, não se arrependera
Meu empenho será máximo
Juro, juro... Tudo diferente...
Agora estou mais experiente

Saudade
Do seu sol

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Lázaro Jose Crispim - o Lazo Doca

Imagina, nunca soube
o que é o amor dos pais
Fazia mais falta o da mãe
os perdeu tão cedo
Cresceu com sensação de só
De de-del-em-del
Não tinham paciência com ele
Não faz bem à criança o sentimento
de não ter com quem contar

Nos primeiros anos fechava os olhos
e tentava se alembrar dos pais
Não conseguia...
queria saber principalmente da mãe
Uma foto que fosse
Diziam que era linda
E ele a imaginava ainda mais linda

Conforme foi crescendo
foi desistindo de lhes rever os rosto
Até a imagem criada da mãe foi
se desbotando, distanciando, não se firmava
num olhar de mulher
decerto ali lhe influenciou
algo da busca pela mãe
sentiu o coração bater diferente

Mas um Baiano o quis matar
Era o marido da mulher mais velha
Foi preciso fugir. Imaginem, fugir
Não falo de humilhação
falo do medo, era criança ainda
um meninão com uns dezessete
Seu irmão Sulau, experiente
Disse briga não presta, menino
Se você perde, você perde
Se você ganha, você perde também
Acabou sozinho num lugar estranho
Era a terra dos pais, a ele, estranha
Sozinho numa roça, sem nada

Mas encontrou luz nos olhos de uma menina
um nome tão bonito, Aurora
Um ranchinho barreado, dois cômodos
Contudo cheiro das flores, café fresco
lenha crepitando em labaredas. Bolos quentes
Enfim o quente dos abraços
Amava envolver a jovem esposa
Quando tremia por medo dos esturros das onças

Tudo passou tão rápido.
Não dava para acreditar que se
passaram quarenta anos
E lá ele outra vez, só, viúvo
Acabou se unindo a uma mulher
mais jovem de nome Tereza
Pensou, agora não fico só; mas Ficou
Outra vez a sensação de sem ninguém
Outra vez o gelado

Com o correr dos dias, e como corriam
as ideias foram se desbotando
Teve uma questão de falta de dinheiro
Suas terras já havia doado aos filhos
O que vinha da aposentadoria
entrou numa onda de desencontros bancários
E também veio o golpe terrível
uma doença incurável
Que levará tantos dos seus ancestrais
mais solidão, mais frio
Um cavo fundo cada vez se afundando mais
Apertando, apertando, apertando-o

Era a solidão de criança muito empiorada
a esperança colocamos nos potinhos dos dias
que supomos vindouros
Mas se olhando nossa dispensa não vemos muitos potes...
A vida se desbota
Conforta-nos a ideia de um dia tudo poderá mudar
Se não há essa ideia...

Entrou a pensar na mãe outra vez
Numa certa noite insone
no mexe-remexe na cama
quase se alembrou do rosto dela
Não da imagem criada
mas da verdadeiro, a original
que viu dos três pra quatro anos de idade
No pouco que dormiu, sonhou com ela
Aí sim, era mesmo linda
Como pode havê-la se esquecido
Viu outra vez o brilho do olhar dela
Também sentiu dela o cheiro e o quente fofo do abraço
Ela naquele seu mais belo vestido, o vermelho sem mangas
Até ao que poderia ser luz ficou cego
Quis abraçar a mãe outra vez
Quando acordou, soube o que fazer

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

AVESSO

Os sonhos são realidade às avessas
No mundo real vemos as coisas
E a partir delas sentimos sensações
No sonho temos sensações               
E delas criamos imagens
Aquele pequeno machucado latejando
Faz a gente ver no sonho uma formiga
Trancando suas tesourinhas
No braço da gente
E aquele certo dia em que nos
Arrependemos de algo
Gera sensação que faz no sonho
Vermos um rato sujo entrando no quarto
Podemos usar a nosso favor
Se conscientemente dormirmos sentindo
Certo perfume e ouvindo Legião
É possível que sonhemos com aquele
Velho amor...

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

RIMA

Eu queria uma
Rima pra mel
Por óbvia e fraca
Não quis fel
Talvez céu
Pensando bem
Melhor meu e seu
E pra que não
Diga que egoísta sou
O mel é seu
Não que seja
Meu o fel
Melhor para
Todos o mel
Por que pra ser
Seu o mel
Deve ser meu
O fel?
Pra todos o mel
Será só no céu?
Tentemos aqui
Ainda que não
Rime com o
Que estamos
Acostumados

domingo, 4 de fevereiro de 2018

PAZ

A tarde doura as montanhas
Às serras cantam os passos-pretos
Os compadres na estrada
Falam que será boa a colheita
À barranca os cães se enrolam
Parece que brigam; mas não
A brisa faz onda à capineira
Já trazendo cheiro de jantar novo
A mulher conta que a galinha
Já veio do mato com os pintinhos
Fala de um jeito eufórico, estabanado
Espanta os canarinhos
O marido sorri do jeito dela
Gosta de vê-la alegre
Os grilos cutucam, cutucam        
Logo cai macia a noite
As estrelas pipocam, pipocam
À ponta do pinheiro
Surge uma lua de anzol
Um cabide pra coisas boas
Pra que não se associe escuridão
A tristezas e negativismos
Na frincha da janela
Um ventinho canta
O marido vira a tramela
Espia lá fora, espia
Farfalham as folhas de cana
Ele sente o cheiro, sente
Destacam-se as flores
Do pessegueiro
A mulher deixa o remendo
Levanta a cabeça
Olha o marido, acha-o bonito
Um pio de coruja vem de longe
O marido se diz já com sono
A mulher põe de lado a costura
Diz então vamos, vamos
Duvido que haja no mundo
Lugar mais em paz

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

LERETETÉ

Meu pai, cedo:
O bicho bateu no galinheiro.
Levou uma galinha ródia.

Mãe: falei para você
Fechar a porta, ontem.
Pai: e eu fechei.
O bicho estourou
A tela.

Meu pai lá pelo almoço:
Estava olhando
Foram duas galinhas,
Acredita!
Mãe: bicho dos infernos.

Meu pai à tardinha:
Você não vai acreditar
Foram três galinhas
Mãe, com um olhar
De fogo: você está
De brincando comigo

A noitinha, meu pai
Falando manso e
Tentando ser engraçado:
Números finais
Foram sete galinhas

Minha mãe dá um
Tapa na mesa:
Ô sujeito, vê se
Fala direito comigo

Fica aí com lereteté
Falando a conta gotas
Por que não fala tudo
De uma vez

Pai: eu não sou
Louco.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

bolha

Às vezes nascia flor no jardim
Sem ninguém plantar
A madrinha falou que eram
Os anjos que plantavam
Eu era muito pequeno
E acreditei

Não tinha nada de
Norte Sul Leste Oeste
Era no Pico da Paz
Que nascia o Cruzeiro do Sul
Na divisa do Zé Marques
Com o padrinho Braz
Nascia o sol
Que às terras do
Tio Ico se punha

Chuva lá dos lados
Dos Teófilos vinha
E se escutasse a Fernão Dias
Era certeza de
Chuva mais tarde

Nas tempestades
Aquelas pereiras no
Alto do Antônio Rocha
Chiavam feio
E eu tinha medo
Tinha aquela história de
Que alguém matou alguém lá
Parece que eu receava que o
Morto fosse acordado

Os vizinhos multiplicavam
As informações pelo grito
A madrinha recebia grito
Da tia Elza que lançava pra
Mamãe que mandava
Pra tia Tereza

Se algum vizinho matasse
Porco todos comeriam
Carne de porco no jantar

A nossa usininha elétrica
Era apenas pra noite
A novela das nove aguentava
Já o filme de depois
Era melhor nem começar

Na escola era apenas
Uma sala para todas
As séries
De primeira a quarta
Uma só professora
E era uma delícia
Jogávamos bola
Perto da igrejinha

Ah, aquele mundo pequeno
Era pequeno mas cheio de cor
Nem excesso nem escassez
Até acho que havia mesmo
Anjos plantando flores
Nada essencial faltava
Nada essencial faltava
Não sei por que teve que crescer



sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

PRECIPÍCIOS

Eles me olham
Olhar duro
Certeza da minha chatice
Pela minha ruga

Acham esquisito
Que eu desvie o olhar
Então me desprezam
Sujeito estranho

...
Não sabem dos meus Precipícios
...
...

O curioso é perceber que
Também julgo a quem vejo
E assim vamos nós
Tão próximos, tão distantes

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

docinho de leite

Ontem aquela moça me disse
Que sentir saudade é rejeitar o presente
Como afirmá-lo sem graça e brilho
Que melhor seria que não tivesse vindo

Observei que eu não entendia assim
Que a saudade boa não é refúgio
Mas sim flor antiga que perfuma até hoje
Uma brasinha que aquece a qualquer tempo
Um docinho de leite cujo dulçor não acaba nunca

Isso acrescenta a instabilidade do presente
Uma constante sensação de gravidez que
Não sabemos se vai acabar em carinho ou soco
Um “não sei onde vai dar” que o que tem
De bonito tem de assustador

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Contramão

Esse negócio
De Ano Novo...
Sinto certa
Fome por esses dias
Mas não encontro
Muito alimento
O ralo aguado
Dumas frases
Todos em Hollywood
Uma barulheira
Sem propósito
Isso de repensar
É positivo
Mas é tão improvável
Que mudemos
Qualquer coisa
Sigo entediado
Desconfortado
Desajustado
Acho que me
Fez falta o encontro
De didiano na 
Casa da vó Gelia