sexta-feira, 6 de abril de 2018

aguardo

o passarinho
na gaiola
adormece na
esperança
de que no novo
dia voará

no novo dia
ele canta
percebe que
ainda não chegou
o momento
mas já sonha
com o dia
seguinte

ele vê homens
ouve gritos
mas prefere
ver flores
os pássaros
livres

assim pinta
seu dias
achando que a
justiça é
igual pra todos

sorte a dele
não perder o sono
assim não
vê os fantasmas
das escuridões

sexta-feira, 30 de março de 2018

ABISMO

Sempre gostei do canto dos pássaros
mas hoje me parecem tristes
aqueles nós por dentro, eu tenso
sabia desse momento faz tempo
mas agora que se aproxima
algo em mim se apequenina
pai, será não se enganou comigo
não é possível que sou tanto
esse silêncio... não estou seguro
ouço um tropel, me assusto
é só vento, e só o vento
pai, será não se enganou comigo
algo me corta e algo já morre
que amargor, pai, que enjoo
já ouço os sinos, já ouço os sinos
pai, será não se enganou comigo
tanta gente nesse mundo
será tem que ser comigo?
não é possível que sou tanto

quinta-feira, 29 de março de 2018

CEGUEIRA DAS AUSÊNCIAS

Uma inabalável fé no futuro
Naqueles dias primeiros
O mundo se acomodaria
Em séculos e séculos de calmaria
Mas não se sabe quando
Veio a neblina, foi se alargando 
Neblina daquelas que a gente 
Tem por dentro e borra tudo 
E o céu se fechou pra chuva
E teve também que um filtro 
Desligou dos olhos o colorido
O extremado cochichou: acabou
Ainda uma resteazinha pos
A força dum pouco avançar
Mas com o cinza, pouco se podia
E na cegueira das ausências
Houve o mergulho sem volta
O mergulho que apaga
Que não aceita mudança de ideias
Que cumpre a ordem

sábado, 24 de março de 2018

MOMENTOS

Irei à Consolação
Semana que vem
Já faz mês que não vou
A casa de mamãe

O pai falará da roça
A mãe entrará no meio
Ele reclamará: deixa
Eu contar do meu jeito

Jantarei demais
Comerei sem medo
Terei o melhor sono
Dormirei cedo

É possível que acorde
Pela alta madruga
Ouvirei a brisa, o sino
E cães virando latas

Pela manhã despertarei
Com o cheiro de café
Darei graças. Sei que nem
Sempre tudo será como é


CRESCER

A gente nasce, cresce
Compra uma camisa xadrez
Às vezes viaja de ônibus
Tem saudade, dias ruins

Às vezes ficamos tristes
Por uma resposta malcriada
Que recebemos

É irreversível
Temos que crescer
Um crescer para dentro
Que reencontra
Meninos

Que são felizes
E fazem as pazes
Enroscando
Dedinhos em anzol

quinta-feira, 15 de março de 2018

Lambaris

Onze lambaris
Na cesta de bambu
Brilham os lambaris
Brilham os lambaris

Empunho minha vara
Canta o corguinho
Perto da casa
Da Titininha

Corre a linha
Corre a linha
Puxo outro
Lambari

De repente
Chia o vento
Chia o vento
Muda o tempo

Ou é chuva
Que vem
Ou conspira
Alguém

Pra que eu
Deixe em paz
Os lambaris
De que não
Preciso mais

Brilham os lambaris
Brilham os lambaris
São doze lambaris
Melhor eu ir

Treze não
É bom número
E amanhã quero
Pescar outra vez

Vamos Rex
Vamos rapaz

terça-feira, 13 de março de 2018

Festa na Senzala


ouvindo aqueles
tambores afro axés
aqueles cantos
lamentos ancestrais
penso na senzala
penso nas pessoas
na casa grande
consigo estar  com
elas na casa grande
ouvindo de longe
o canto e os tambores
não consigo contudo
estar na senzala
sentir aquela dor
aquela tristeza
aquela saudade
aquela alegria
lamentosa da
festa dos negros

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

CINZA

A chuva cai
Tudo cinza
Cadê o céu
Que saudade do azul

As gotas cutucam
Cutucam
Eu não sei
Até quando
Essa chuva

Você que não vem
Se foi e disse
Que não voltaria
Eu não acreditei

Estou pronto para tentarmos de novo
Será algo novo e diferente
Se me der uma chance faremos tudo diferente
Você não se arrependerá...
Eu juro, juro, não se arrependerá
Meu empenho será máximo
Juro, juro... Tudo diferente...
Agora estou mais experiente

Se não chove
Aí onde está
Se aí há sol
Muito sol

Se está bom
Então fique
Aproveite
Viva bem

Mas se não
Se também lhe cai o cinza
Pensa bem
No que lhe falo

Estou pronto para tentarmos de novo
Será algo novo e diferente
Se me der uma chance faremos tudo diferente
Você não se arrependera...
Eu juro, juro, não se arrependera
Meu empenho será máximo
Juro, juro... Tudo diferente...
Agora estou mais experiente

Saudade
Do seu sol

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Lázaro Jose Crispim - o Lazo Doca

Imagina, nunca soube
o que é o amor dos pais
Fazia mais falta o da mãe
os perdeu tão cedo
Cresceu com sensação de só
De de-del-em-del
Não tinham paciência com ele
Não faz bem à criança o sentimento
de não ter com quem contar

Nos primeiros anos fechava os olhos
e tentava se alembrar dos pais
Não conseguia...
queria saber principalmente da mãe
Uma foto que fosse
Diziam que era linda
E ele a imaginava ainda mais linda

Conforme foi crescendo
foi desistindo de lhes rever os rosto
Até a imagem criada da mãe foi
se desbotando, distanciando, não se firmava
num olhar de mulher
decerto ali lhe influenciou
algo da busca pela mãe
sentiu o coração bater diferente

Mas um Baiano o quis matar
Era o marido da mulher mais velha
Foi preciso fugir. Imaginem, fugir
Não falo de humilhação
falo do medo, era criança ainda
um meninão com uns dezessete
Seu irmão Sulau, experiente
Disse briga não presta, menino
Se você perde, você perde
Se você ganha, você perde também
Acabou sozinho num lugar estranho
Era a terra dos pais, a ele, estranha
Sozinho numa roça, sem nada

Mas encontrou luz nos olhos de uma menina
um nome tão bonito, Aurora
Um ranchinho barreado, dois cômodos
Contudo cheiro das flores, café fresco
lenha crepitando em labaredas. Bolos quentes
Enfim o quente dos abraços
Amava envolver a jovem esposa
Quando tremia por medo dos esturros das onças

Tudo passou tão rápido.
Não dava para acreditar que se
passaram quarenta anos
E lá ele outra vez, só, viúvo
Acabou se unindo a uma mulher
mais jovem de nome Tereza
Pensou, agora não fico só; mas Ficou
Outra vez a sensação de sem ninguém
Outra vez o gelado

Com o correr dos dias, e como corriam
as ideias foram se desbotando
Teve uma questão de falta de dinheiro
Suas terras já havia doado aos filhos
O que vinha da aposentadoria
entrou numa onda de desencontros bancários
E também veio o golpe terrível
uma doença incurável
Que levará tantos dos seus ancestrais
mais solidão, mais frio
Um cavo fundo cada vez se afundando mais
Apertando, apertando, apertando-o

Era a solidão de criança muito empiorada
a esperança colocamos nos potinhos dos dias
que supomos vindouros
Mas se olhando nossa dispensa não vemos muitos potes...
A vida se desbota
Conforta-nos a ideia de um dia tudo poderá mudar
Se não há essa ideia...

Entrou a pensar na mãe outra vez
Numa certa noite insone
no mexe-remexe na cama
quase se alembrou do rosto dela
Não da imagem criada
mas da verdadeiro, a original
que viu dos três pra quatro anos de idade
No pouco que dormiu, sonhou com ela
Aí sim, era mesmo linda
Como pode havê-la se esquecido
Viu outra vez o brilho do olhar dela
Também sentiu dela o cheiro e o quente fofo do abraço
Ela naquele seu mais belo vestido, o vermelho sem mangas
Até ao que poderia ser luz ficou cego
Quis abraçar a mãe outra vez
Quando acordou, soube o que fazer

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

AVESSO

Os sonhos são realidade às avessas
No mundo real vemos as coisas
E a partir delas sentimos sensações
No sonho temos sensações               
E delas criamos imagens
Aquele pequeno machucado latejando
Faz a gente ver no sonho uma formiga
Trancando suas tesourinhas
No braço da gente
E aquele certo dia em que nos
Arrependemos de algo
Gera sensação que faz no sonho
Vermos um rato sujo entrando no quarto
Podemos usar a nosso favor
Se conscientemente dormirmos sentindo
Certo perfume e ouvindo Legião
É possível que sonhemos com aquele
Velho amor...