segunda-feira, 28 de setembro de 2015

ENCOSTO


Eu queria que Malaquias parasse de me seguir
Parasse de me dizer coisas que não quero ouvir
Parasse de me indicar coisas que não quero ver
Não é que quero me fazer de cego e surdo
É que Malaquias me diz as coisas de um jeito
Eu consigo comprovar o que sugere e escutar o que diz
Mas sinceramente receio que seja algum truque dele
Pode ser que nada do que vem dele seja sincero
Que ele seja um traiçoeiro querendo se fazer de amigo
Mas no fundo, no fundo esteja querendo me ver mal
Mal comigo mesmo e com os outros
Não sei o que faço para Malaquias ir embora
Ele acaba me convencendo a vestir-me em roupas
Que sinceramente não são compatíveis comigo
Não sei por que eu escuto o Malaquias
Mas é que ele tem uma capacidade tão grande de me enrolar
E tem também que ele age não me fazendo pensar,
Mas pelo contrário. Me fazendo não pensar,
Porque aí sou presa fácil as suas maluquices
Se esse encosto do Malaquias não partir logo
Decerto logo, logo me leva para Marte



domingo, 27 de setembro de 2015

MOTIVOS



Minha mãe amola meu pai
Pelos tantos garnisés na roça
Esses malandrinhos
Comem milho como os grandes
Acaba com isso, cria juízo
Meu pai diz que ela é insensível
Que ouvindo os cantares deles
Se recorda da infância, da mãe
Coisas que não tem preço
Que gastar um pouco mais
Com milho vale pelo prazer
Da tão cara lembrança
O que meu pai não quer saber
É que justamente minha mãe
Não gosta de garnisés por
Também se recordar da infância
Ao que ouve aqueles cantares
Bem se recorda do pai
De como não gostava dos galinhos
Criticando quem tinha
Aqueles malandrinhos
Que comem mais milho
Do que galos grandes, dizia


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Acordei?



Não estou bem seguro
Se acordei
Mais ou menos
Diga-se
É como viesse congelado
E exatamente ali
Começasse a correr
Sangue em mim
E então revivo
Segundos que sinto
Se abro os olhos
Ligo o interruptor
Do total despertar
Mas daquele jeito
Com eles fechados
Estou com um pé
Lá outro cá
Um em cada mundo
Assim sou capaz
De sonhar acordado
Procuro me manter
Desse jeito o quanto puder
Assim tudo posso
Adoro sonhar acordado 


sábado, 19 de setembro de 2015

Quadro

Uma das cenas mais
Confortáveis que habitam
Minha mente
Está frio
Estou embaixo
Do cobertor da vovó Aurora
Ouço o arranhar da chuva
No telhado
Sem laje ou forro
Minha irmã dorme tranquila
Sinto os cheiros
Do fogão à lenha
Da cozinha de minha mãe
Papai bem sei
Não está abaixo daquele teto
Já partiu há tempo
A busca de nosso sustento
Isso faz parte
Da confortável sensação
Saber que nada me faltará
E nada preciso fazer
Para que isso ocorra
Não estou vendo
Mas sei que há
Canarinhos encarangados
As beiradas dos telhados
No cafezal, dos grãos
As gotas caem
Como lá houvesse
Uma chuvinha própria
E no Pico da Paz
Deve haver bruma
Se abrir bem os ouvidos
É possível que se ouça o zumbido
Dos carros transitando
Na Fernão Dias
Distante atrás da montanha
Cerca de 15 quilômetros
Só conseguimos ouvir
Em dias chuvosos
Não sei por quê
Nem penso que meu pai
Esteja com frio ou fome
E como fosse um super-herói
A capa, um pedaço de plástico
O calçado, uma galocha 7 léguas
O capacete, um chapéu de palha

A arma, a enxada 


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

E nasceu o Kirk



Eu, Dioni, peguei o ônibus nas derradeiras luzes do dia. Linha Paraisópolis a Itajubá. Depois, as 22, peguei Itajubá a capital. Acabei dormindo. Acordei já amanhecia. Viadutos, prédios... Uma confusão aos meus olhos. Coisas sim já vistas em preto e branco pela tv; mas para um jovem montanhês como eu aquele colorido descolorido era realidade de apertar a garganta. Um labirinto de espantar. Edifícios tão altos. Ruas a sumir de vista. Pistas com várias veículos lado a lado muito bem cercadas a concreto. Não via o horizonte. Como poderia ser belo? Faltava-me o ar, e o que vinha era-me pesado e pegajoso. As janelas pareciam olhos a vigiar. Os arames frios dos fios nos postes lembravam chuchuzeiro no jirau. Das armações de cimento parecia sair vozes em couro a dizer matem esse menino. O som lembrava um exame em nuvem de abelhas passando sobre a gente. As pessoas pareciam não se importar. Não ouvir. Abri a janela do ônibus porque o sujeito ao meu lado não parava de fumar. O sol recém-nascido jogou luzes sobre mim. Pareceu mais quente do que eu estava acostumado. vi o Arrudas serpenteando. Supus que quem sabe não fosse um rio, mas sim apenas um monstro feiticeiro que se fazia de acabado, mas ia encantando as pessoas e sendo o mentor daquele caos. Na rodoviária segui as coordenadas do sr. João. Peguei o Setelagoano e o meu mundo já não seria mais o mesmo. Alguma coisa em mim se acabava, um fim de ciclo. Foi questão de detalhe logo depois um chefe meu perguntar-me o nome. Falei Dioni. Ele disse Dioni? Eu balancei a cabeça afirmativamente. Apenas Dioni? Ele disse. Falei Dioni Kirk. Dioni é muito feminino. Vou te apresentar como Kirk, ele disse. Concordei. Aí pronto. Nasceu o Kirk. Ninguém me conheceria como Dioni mais. Na verdade o Dioni não morreu. Segue lá. Apenas se levantou um segundo andar de nome Kirk.