sábado, 19 de setembro de 2015

Quadro

Uma das cenas mais
Confortáveis que habitam
Minha mente
Está frio
Estou embaixo
Do cobertor da vovó Aurora
Ouço o arranhar da chuva
No telhado
Sem laje ou forro
Minha irmã dorme tranquila
Sinto os cheiros
Do fogão à lenha
Da cozinha de minha mãe
Papai bem sei
Não está abaixo daquele teto
Já partiu há tempo
A busca de nosso sustento
Isso faz parte
Da confortável sensação
Saber que nada me faltará
E nada preciso fazer
Para que isso ocorra
Não estou vendo
Mas sei que há
Canarinhos encarangados
As beiradas dos telhados
No cafezal, dos grãos
As gotas caem
Como lá houvesse
Uma chuvinha própria
E no Pico da Paz
Deve haver bruma
Se abrir bem os ouvidos
É possível que se ouça o zumbido
Dos carros transitando
Na Fernão Dias
Distante atrás da montanha
Cerca de 15 quilômetros
Só conseguimos ouvir
Em dias chuvosos
Não sei por quê
Nem penso que meu pai
Esteja com frio ou fome
E como fosse um super-herói
A capa, um pedaço de plástico
O calçado, uma galocha 7 léguas
O capacete, um chapéu de palha

A arma, a enxada 


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