segunda-feira, 20 de maio de 2013

Cortejo Fúnebre



Eu estava lá, na varanda. Estava à toa, olhando a rua. Passaram empurrando um caixão sobre um carrinho. Era um caixão de defunto. Um pequeno grupo acompanhava o cortejo. Vinham da igreja, iam ao cemitério. Perguntei para um, "quem morreu?". "É o Tião da Zinha", respondeu o sujeito, "foi de coração", concluiu. O tal Tião da Zinha foi meu colega de colégio, poxa. Gelei. Poderia ser eu ali no caixão. Ninguém reza. Apenas iam. Não havia muita gente, mas atrapalhavam o trânsito. Poucos pareciam realmente tristes. Lá das funduras de mim mesmo me deu um jeito muito ruim mesmo. "Poderia ser eu ali", repetia de mim para mim mesmo. "Credo!" Como teria sido a vida do pobre Tião da Zinha? Não o vi mais desde o colegial. Deve ter sido igual a minha, igual a de todo mundo, só amolação. Os motoristas atrapalhados pelo cortejo começaram a se impacientar, pela lentidão daquele povo. Bem que poderiam usar meia rua e liberar o trânsito. A maioria dos que acompanhavam vinham parece que indiferente ao Tião da Zinha, coitado. Vinham cochichando lá entre eles. Tentei ouvir o que diziam os que passavam perto de mim. Dois parece que falavam da gravidez solteira da filha prefeito. Outros falavam de uma vizinha gostosa. Umas mulheres, do preço tomate. Alguns motoristas entraram a buzinar. Os poucos realmente tristes, afundados em tristeza, nem ouviam as buzinas. Os que vinham indiferentes, seguiram indiferentes também ao buzinaço, apenas concentrado neles mesmos e nas banalidades que tratavam. De repente fiquei com inveja do Tião da Zinha. Enfim descanso deste mundo cruel.


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