quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
o desgosto

Num certo dia acordei bem mais cedo, lá pelas seis e pouco da manhã. Tinha eu então uns quatorze anos.
Chegando à cozinha deparei-me com o vovô Lazo Doca todo agitado. Ele estava todo suado e tomava muita água. É que trabalhava numa roça de milho plantada ao quintal desde as quatro e meia, segundo ele.
Meio brincando lhe falei que trabalhar demais mata a gente. Mas ele, me olhando sério, disse que o trabalho não mata, mas sim o desgosto.
De fato o desgosto matou-o poucos anos depois...
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
O MENINO E A SERPENTE...

Lá vai o menino, com uma serpente no pescoço, caminhando, numa floresta hostil, onde as noites são mais escuras que a escuridão, e frias, feito à alma dos insensíveis.
Os dias, também são escuros, quase tanto quanto à noite, um pouco mais cálidos é bem verdade que se diga, mas não muito.
O pobre nunca saiu daquela floresta, a ingenuidade nela faz-se presente, criança, inocente, só quer coisas boas, brincar, fazer amigos, sorrir, comer mel... De regra nada disto acontece... É incompatível com aquele lugar traiçoeiro e agressivo.
No pescoço leva, enroscada, aquela horrenda serpente, não é sua amiga, muita vez o pica, mas crescer com ela, fez com que seu corpo se tornasse imune, aquele veneno não o mata, somente o faz sentir dor, muito dor.
Apesar da sua ingenuidade, o menino intui que a serpente o protege, não por que quer, mas somente pelo fato de estar emaranhada em seu pescoço faz com que o respeitem um pouco, temem-na, sem ela, ele não duraria nem cinco minutos.
Às vezes ele chora, comumente, quando ela dorme, pois se está acordada poderia irritar-se e o mordê-lo, e aquela dor é realmente terrível.
Às vezes ele tem inveja dos animais que vê, parecem ser tão felizes, pois não registram fatos passados e nem tem expectativa para o futuro, isso faz com que vivam cada momento, numa sensação linear, sem comparações com outras situações, assim, vivem em constante felicidade. Que inveja...
Uma linda borboleta azul o acompanha vez em quando, é sua amiga. Teme um pouco a serpente, que, não obstante a amizade com o menino, não tem a menor consideração por ela. Qualquer vacilo e ela dá seu bote, para feri-la ou mata-la, tanto faz.
A bruta da companheira do menininho, como ele, alimenta-se de umas frutinhas de duas grandes árvores, que ficam próximas de um lago, ao oriente, na parte um pouco mais clara da floresta.
A árvore mais nova dá um fruto maior, contudo um pouco mais ácido, e esta acidez às vezes irrita a serpente, não o menino.
A árvore mais velha dá frutos menores, porém, muitas vezes mais adocicados. Sendo estes, a única coisa em toda aquela floresta escura que é capaz de acalmar a aquela insensível. O menino a procura com mais freqüência.
Às vezes, ele se olha nas águas turvas do lago, se vê, como a imagem o deforma um pouco, se acha feio, pensa ser este o motivo porque é infeliz. Não entende porque a borboleta azul sente algum carinho por ele, pois, é tão feio, não merece tal sentimento nobre.
Ele já percebeu, que a borboleta azul traz em sua gualdrapa uma daquelas frutinhas doce, e quando a danada está meio atacada, joga aquele pingo de mel em sua garganta. Então a coisa-ruim acalma-se um pouco.
O pequenino tolo vive seus dias, na esperança de que encontre um lugar, onde possa sentir o calor do sol, onde a água cristalina desça calmamente, dançando entre as pedras brancas e redondas, onde os sabiás gorjeiem nas tardes de primavera, e uma brisa leve acaricie sua pele, neste dia, abandonara a serpente, ficará para trás, não haverá mais ameaça, então aqueles seus dias ficarão esquecidos, como um sonho ruim numa noite mal dormida... Pobre menino, sempre pensa que este lugar está atrás da próxima montanha... Que engano.
Lá vai um menino com uma serpente no pescoço, caminhando, numa floresta hostil.
sábado, 23 de outubro de 2010
Shekina-santos

Os homens, enquanto seres físicos, são, por sua natureza, essencialemente visuais. Partindo disso Deus orientou aos homens que fizessem a Arca da Aliança, o objeto em que as tábuas dos Dez mandamentos teriam sido guardadas.
Segundo está relatado na Bíblia, Deus se fazia presente nesta Arca, o que os Judeus chamavam Shekinah ou presença de Deus.
Aquela arca não era Deus, mas olhando-a, era como se Deus estivesse ali. Era uma espécie de chave, um algo físico que ligava mentalmente uma sensação de presença Divina.
Alguma semelhança com os santos?
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
saudades
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
ah, menino!
Oh! Amiguinho meu,
veja só o destino,
nos dá, e empós tira.
Até parece mentira!
Morrer não dá medo,
mas sim o desprezo.
O que dói na velhice,
não é o que lhe existe,
mas o que já existiu.
Ah! Isso dói viu.
Ao longe dos queridos,
digo-lhe é mui sofrido.
Não aflige a falta de vigor,
mas dos amigos o calor,
dos manos as boas prosas,
dos avós as muitas histórias,
dos pais o terno sorriso,
do mundo o ar de paraíso...
Ah, menino, menino!
Em meio a esse desatino,
mais, escrever já não consigo.
Um dia entenderá o que digo.
Quando for estranho no ninho,
em meio há cinzas,
tão sozinho...
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Já ouço o grito

Nas velhas ruas da metrópole,
Umas tantas pedras tortas,
Tentam Esconder.
A verdade fúnebre do que fomos,
E, embora tanto refutemos,
Tornaremos a ser.
Na poeira destes tão velhos tortos,,
O torto lúgubre deste jeito,
É de fazer tremer.
Pela desatenção ao grito do dragão,
Que a todos Anunciará,
Um novo a acontecer.
Na igreja de tão antigos sinos.
Uns tantos joelho rotos,
Entortam-se em vão.
Já que o velho senhor pedra,
Asquerosamente se infiltrando,
Destila o seu anti-pão.
É melhor que acredite,
O dragão anunciará,
E antes que pisque,
Tudo se transformará.
Por sorte os meninos tão ingênuos,
alheios a impregnante treva,
Entrevêem flores na praça...
E ver flores abranda, mas não tanto,
E assim segue o ponto:
Até onde vai esta graça?
O que sobrará disso tudo?
O que realmente vale a pena?
Responda-me, por favor...
Este povo todo, por aí se movendo,
Nem aí, se alegrando...
Até onde vai este calor?
Nem sei se é dia ou noite...
O quão perfeito é este quase-perfeito...
Por que a apreensão.
O que penso que sei é que,
Aqui, do alto da janela triste,
Já ouço o grito do dragão.
É melhor que acredite,
O dragão anunciará,
E antes que pisque,
Tudo se transformará.
domingo, 27 de dezembro de 2009
temor a Deus

Nós, digo nós os Cristãos, hoje perdemos um pouco o contato com a expressão “ser temente a Deus”. Deus foi transformado em nossa cabeça numa espécie de paizão que a tudo aceita, estando o todo de braços abertos para recebermos. Podemos errar o quanto quisermos...
Penso que a coisa não deve ser vista bem assim. Nós devemos temer a Deus, pois cada um colhe o que planta. O que pode acontecer é de Deus dar-nos ou não força para suportar as colheitas ruins; mas que colhemos, colhemos...
Assim, devemos ter mais cuidado com as nossas ações. Uma regra interessante é o tempo todo nos questionarmos. Antes de cada ação devemos pensar: como o diabo agiria aqui? E Jesus, como agiria? Fazendo assim por temor a Deus, ao vermos que estamos prestes a agir como o diabo agiria, temos mais chances de impedir que uma semente ruim seja jogada a terra...
domingo, 27 de setembro de 2009
Os Santos
O seu João gratuitamente era o jardineiro da pracinha do povoado. O seu jardim era o mais belo da região. Depositando ali todo o seu zelo e o seu amor o retorno não podia ser outro que não muitas flores e cores. O seu João era uma excelente pessoa. Muito integro e honrado, inspirava a todos. Sempre estava na Igreja... Algumas senhoras vendo o seu jeito tão especial, além delas próprias orarem pediam-no que também orasse a Deus pedindo por elas. Era curioso, quando havia este pedido elas parece que acreditavam com mais intensidade. Isso de alguma forma as fazia crer mais...Pois bem, num triste dia o seu João morreu e então passou a dormir até o dia do juízo. As senhoras ficaram desconsoladas. Elas como antes continuaram rezando a Deus, mas sentiam que faltava algo. Faltava era o conforto do pedido do seu João... Ocorre que as senhoras notaram algo curioso, quando elas rezavam a Deus, mas pensando no jeito ilibado do seu João, parece que conseguiam ter mais fé. Se nisso pousassem os olhos numa foto que tinham dele, o refinamento com Deus era ainda maior... O jardim da pracinha do povoado elas não deixaram morrer. Cuidando daquele espaço da forma mais zelosa possível, elas de algum jeito tinham uma sensação de manter ativa a ponte que o seu João construiu ligando a terra a Deus...
Os netos e bisnetos destas senhoras, que nem conheceram o seu João, também aprenderam o jeito, rezavam a Deus e pensavam numa pessoa santa, um tal seu João que viveu de um jeito reto, mostrando que era possível inibir ao máximo o pecado. Quando eles olhavam para a foto do seu João, de algum jeito sentiam ainda mais próximos de Deus... Certa vez uma das bisnetas até fez um bonequinho. Era uma estatuazinha de um senhorzinho encurvado e com muitas flores nos braços, da forma que ela imaginava ter sido o seu João. Esta estatuazinha passou a ter o mesmo efeito da foto, ou seja, inspirava a todos a levar uma vida fé e de amor...
Essa inspiração funcionava mais ou menos como nos recordes esportivos... Se ninguém nunca conseguiu, quase ninguém tenta, por achar impossível... Contudo, a partir do momento em que alguém consegue, auferindo a medalha de ouro, muitos vêem que é possível e passam a tentar... A medalha seria apenas um símbolo, uma inspiração, já que o que se quer mesmo é a vitória... Às vezes pode-se até ouvir alguém dizer que quer a medalha, mas isso na verdade seria apenas força de expressão. O que se quer é a vitória. Se assim não fosse bastaria comprar a medalha...
.
E assim reza-se a Deus inspirando-se em Maria, José, Paulo... A reza é sempre a Deus, que é o único Onipresente, Onisciente e Onipotente... Se eventualmente se fala de um jeito onde se pode supor que não seja desse jeito, é um engano e Deus generoso como é não importará. Ele ouvirá tão alto o que o coração está sentindo que nem prestará atenção nas palavras que estão sendo efetivamente ditas... Quando Jesus angustiado com o que ia acontecer-lhe pediu a Deus: "afaste de mim este cálice", Deus não ouviu o que a boca de seu filho dizia, mas sim o seu coração, e então enviou-lhe um anjo do céu para confortá-lo. "Apareceu-lhe um anjo do céu, que o confortava" Lucas 22:43.
Deus preocupa-se quando o homem substitui o relacionamento com Ele, que na prática é a capacidade de amar, por algo. Muita gente é excessivamente apegada a dogmas religiosos. Os fariseus e os escribas eram pessoas bastante religiosas e mesmo assim foram advertidas por Jesus por ver no comportamento deles algo repreensível, o demasiado apego aos dogmas. O seu João dando tom de amor nos corações das pessoas, afinando a sintonia com Deus, favorece este relacionamento ao invés de substituí-lo.
Deus preocupa-se quando o homem substitui o relacionamento com Ele, que na prática é a capacidade de amar, por algo. Muita gente é excessivamente apegada a dogmas religiosos. Os fariseus e os escribas eram pessoas bastante religiosas e mesmo assim foram advertidas por Jesus por ver no comportamento deles algo repreensível, o demasiado apego aos dogmas. O seu João dando tom de amor nos corações das pessoas, afinando a sintonia com Deus, favorece este relacionamento ao invés de substituí-lo.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
ganhar e perder

Houve uma época, isso lá pelos meus quatorze ou quinze anos, que uma das minhas alegrias era jogar damas com o meu tio Valdomiro. Ele levava o jogo muito a sério. Por aquele tempo, ali em Consolação, a habilidade de um homem no jogo de damas garantia-lhe certa reputação.
Eu raramente ganhava, contudo gostava muito daquilo. Mas por quê?
Gostava porque na verdade não é do jogo que eu gostava, mas sim do meu tio. Eu gostava da conversa dele. Das histórias dele. Coisas que ele ia falando durante o jogo.
Hoje, pensando bem, acho até que eu facilitava para ele, para que ganhasse quase sempre. Acho que se eu tornasse um adversário muito difícil, possivelmente ele teria que pensar mais e aí não conversaria comigo da forma que conversava naqueles momentos.
Naquele tempo o meu tio estava muito doente e deprimido. Ele sempre foi alguém muito ativo, a doença, porém, obrigava-o a ficar quieto. Ganhar as várias partidas fazia-o melhorar a auto-estima e aí ele ia alegrando-se, alegrando-se, e logo “soltava” a língua.
Talvez no fundo, no fundo, intuitivamente ele soubesse disso tudo, pois por ganhar tanto de mim era para ele não me respeitar muito. Era para ele nem querer jogar comigo, por ser eu um oponente tão fraco. Contudo, ele respeitava. Respeitava como fosse eu não apenas um moleque, mas sim um adulto, e honrado.
Do jeito que eu fazia, e lógico que fazia de forma inconsciente, mesmo “perdendo” eu “ganhava”.
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