quinta-feira, 5 de novembro de 2026

No Topo dos Dias

No topo dos dias
levanto um menino,
que vê nas pedras
um campo de lírios.

Guardá-lo assim,
acima dos montes,
onde passam nuvens
e nascem fontes.

Onde o sol se espalha
sem pressa de chegar
A lua se deita
e o vento vem brincar.

É ver a vida
como vê o quintal:
uma poça de chuva,
um bem-te-vi no varal.


domingo, 1 de novembro de 2026

Nos Cabelos Daqueles Dias

Nos cabelos daqueles dias

Tiaras delírios e corruíras
também um lenço floral
de chita fina

E sem que ninguém
Plantasse
Floresceu no jardim
Um pé de jasmim

Brancas flores
Cinco pétalas

Mamãe cantava
Papai arranjava
Um cercado
De bambus

Abotoado no céu
Um sol de mel
Dourava o cardeal
No moirão do curral

A força do seu canto
Escorava o tempo
E ecoava no mundo
inteiro

Um vento azul
Corria no céu
Brincava com o voo
de uns tantos tizius

Meu irmão ia
Cambaleava caía
Minha irmã sorria

Mamãe cantava
Papai afofava
A terra do jardim

Puxo a cortina
De chita fina
Espio

Meu irmão corre
Faz fusquinha
Minha irmã sorri

Mamãe ainda canta
Papai ainda planta
O mundo que faz
cores em mim

E daqueles dias
Bordo poesias
Para você ouvir

 


terça-feira, 27 de outubro de 2026

O passarinho do meu peito

No quintal do meu peito,

habita um passarinho.
Sanhaço, filho do sol,

arisco e pequenino.

 

Desperta antes de mim,
clama-me lá de onde está.
voa e salta entre folhas
sem jamais se distanciar

 

enfronha-se entre cinzas

dos galhos e das sombras.
Faz no silêncio sue ninho.
mas seu canto e azul.

 

Quanto mais me esqueço,
mais ele se mostra.
Se menos me busco,
mais sou morada.

 

E Nada lhe falta.
e meu peito lhe é tudo.

e assim amor em brasa

me põe asas e escudo


sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Raso

Raso
Da treva para a luz
 
Não lhe vejo.
Nem sei que existe.
Não acredito que exista.
Não lhe tenho medo.
Você me é um nada.
Nunca lhe vi.

Sorrio quando me dizem
coisas sobre você.
 
Quando alguém
é incapaz de perceber,
simplesmente desconhece.
 
Até sorri de quão idiotas
são aqueles outros.
 
Percebo assim aquele
sem sensibilidade social.
 
Raso
 
Não é tirar de quem produz
e lançar aos preguiçosos.
É coisa mais funda.
 
É não se acostumar
com a dor
de quem ficou para trás,
como resíduo da máquina
que segue moeeeeeendo.
 
Uma sociedade não é inteira
com irmãos à margem.
 
A máquina não vê.
Nós devemos ver.
Buscar ver

Pense
A treva
Jamais viu 
a luz
 
Não trago a ideia
de mudança de mundo.
Falo do exercício de ver.
De aprender a ver.
De doer com o outro.
 
De não se acostumar
Com o sofrimento alheio.
 
Perceber.
Experimentar.
Sentir.
Expressar.

Ir além do
mim mesmo.
Ir além do
Raso.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Azul

No peito,
a esperança.

E ela é azul.

Nos calos
amarelados das mãos,
a aspereza,
a bruteza.

Mas no peito,
a esperança azul.

Esperança para todos,
Céu para todos

Como pintinhos
debaixo da mãe
no dia frio.

Se é para todos é joia.
Apenas para si é joio.

Cresce,
mas é amargo.
Não dá em nada.

No peito azul,
o paradoxo do
quanto mais vazio,
mais cheio.

E o coração quentinho,
Como dentro de um ninho
de beija-flor.

Fuja do que
não for para todos.

Fuja.

Se não for para todos,
É apenas para os tolos.

Não é azul.
Não é céu

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Depois dos tubarões

Nem todos merecem saber
o que aconteceu depois
que me lançaram aos tubarões.

Alguns só viram o mar.

Não precisam saber
como voltei à margem,
nem quantas vezes afundei.

Há vitórias
que a gente não conta.

Apenas guarda.

sábado, 25 de julho de 2026

IMPRESSÃO

eu queria
falar da 
impressão

todavia
a impressão 
não cabe 
em poesia

a impressão
desafina
o coração

emoldurada
no penso ser
destoa 
do que é

não vibra 
pulsação
é chispa 
de reação

o que flui
vai macio 
brilhante
instante

a impressão
é impertinente
dura cortante

e no lampejo
de breu
há meu e seu

contudo
sem céu

menos vê
quanto mais 
se mira

a impressão
não cabe
em poesia

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A Onda


O canário, quando canta,
não anuncia alegria:
ele apenas traduz
a onda invisível
que atravessa tudo.
Transforma o indizível em som.

O sol da manhã
faz da mesma onda um brilho.
A rosa, obediente,
a veste de vermelho.
O capim, humilde,
a converte em verde viço.

É a onda que varre o universo.
É a onda que pulsa sem nome.
É a onda que chamamos vida.
É a onda que é tudo o que há.

O pássaro não canta porque está feliz.
Canta porque está em fase.
Quando não está,
há um ruído na engrenagem frágil
que chamamos corpo:
então ele silencia,
amuado de mundo.

E nós, homens do “eu”,
do “isso é meu”,
do “como sou isto ou aquilo”,
do “como sou belo”,
do “como sou abençoado”…
isso é a maquininha falando.
Isso é desafinar da onda.

Estar na onda é entrega.
Entrega sem vaidade.
Entrega inocente.
Entrega cega.
Entrega sem tribunal.

Quando julgo,
oscilo entre bem e mal,
e nessa oscilação
não há entrega.
É o mundo da serpente:
fora do paraíso.

Se penso que o bom
mora à direita ou à esquerda,
não me entreguei.

Entregar-se é soltar.
Há quem chame de caminho do meio,
outros de caminho reto,
outros ainda de justiça.

Eu chamo de silêncio aberto
tento não conduzir
mas ser conduzido.

Deixar a onda me levar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Atalho

 

A gente vai pela vida
parecendo não estar
onde está.

 

Sempre um desejo adiante,
um querer lá na frente,

o agora reduzido
atalho

corredor estreito,
passagem apressada
entre um antes

e um depois.

 

Onde devíamos estar
já estamos.
Aqui é o chão exato
do que precisa ser feito,
a sala de aula do que

carece ser aprendido.

 

Quando uso o agora

como atalho, corredor,
fico repartido:

um pedaço de mim

sentado na cadeira,
outro, desprendido

a mirar o que

ainda não existe.

 

Então viro isso:
sobredividido,
coxo,
xoxo,
côncavo
oco de mim

eco de mim.

 

Se eu não viver
o que me vem

O que sobra além
senão tédio.

impaciência.

ansiedade
ignorância

 

Sobra é sobra

Se vou por esse atalho

daí, além de burro,

ignorante.


sábado, 18 de outubro de 2025

O Hálito do Eterno

O eterno em mim pede.
Vislumbro a ruína do templo,
mas não há luto, apenas o eco
de um silêncio que conhece
o nome das origens.

O fogo queimará o que nunca foi,
e no fulgor das cinzas
as máscaras se dissolverão em inocência:
a única oferenda em minhas mãos.
 
Sede em mim, ó lua sereia,
reflexo da chama maior.
Transfigura em maré a carne e o verbo.
Pois ainda que eu pense haver
suspiros e rangeres de dentes,
além da fronteira saberei do engano, 
quando o véu ruir.
 
Através de mim será encontrado
aquilo que não tem nome.
Não busco sentido,
quero o hálito da justiça,
a respiração dos deuses
no pó da criação.
 
E quando meus dedos tocarem o eterno,
que se rompa o tempo em claridade,
e que o que resta de mim
seja apenas o toque do que é.