sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Raso

Raso
Da treva para a luz
 
Não lhe vejo.
Nem sei que existe.
Não acredito que exista.
Não lhe tenho medo.
Você me é um nada.
Nunca lhe vi.

Sorrio quando me dizem
coisas sobre você.
 
Quando alguém
é incapaz de perceber,
simplesmente desconhece.
 
Até sorri de quão idiotas
são aqueles outros.
 
Percebo assim aquele
sem sensibilidade social.
 
Raso
 
Não é tirar de quem produz
e lançar aos preguiçosos.
É coisa mais funda.
 
É não se acostumar
com a dor
de quem ficou para trás,
como resíduo da máquina
que segue moeeeeeendo.
 
Uma sociedade não é inteira
com irmãos à margem.
 
A máquina não vê.
Nós devemos ver.
Buscar ver

Pense
A treva
Jamais viu 
a luz
 
Não trago a ideia
de mudança de mundo.
Falo do exercício de ver.
De aprender a ver.
De doer com o outro.
 
De não se acostumar
Com o sofrimento alheio.
 
Perceber.
Experimentar.
Sentir.
Expressar.

Ir além do
mim mesmo.
Ir além do
Raso.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Azul

No peito,
a esperança.

E ela é azul.

Nos calos
amarelados das mãos,
a aspereza,
a bruteza.

Mas no peito,
a esperança azul.

Esperança para todos,
Céu para todos

Como pintinhos
debaixo da mãe
no dia frio.

Se é para todos é joia.
Apenas para si é joio.

Cresce,
mas é amargo.
Não dá em nada.

No peito azul,
o paradoxo do
quanto mais vazio,
mais cheio.

E o coração quentinho,
Como dentro de um ninho
de beija-flor.

Fuja do que
não for para todos.

Fuja.

Se não for para todos,
É apenas para os tolos.

Não é azul.
Não é céu

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Depois dos tubarões

Nem todos merecem saber
o que aconteceu depois
que me lançaram aos tubarões.

Alguns só viram o mar.

Não precisam saber
como voltei à margem,
nem quantas vezes afundei.

Há vitórias
que a gente não conta.

Apenas guarda.

sábado, 25 de julho de 2026

IMPRESSÃO

eu queria
falar da 
impressão

todavia
a impressão 
não cabe 
em poesia

a impressão
desafina
o coração

emoldurada
no penso ser
destoa 
do que é

não vibra 
pulsação
é chispa 
de reação

o que flui
vai macio 
brilhante
instante

a impressão
é impertinente
dura cortante

e no lampejo
de breu
há meu e seu

contudo
sem céu

menos vê
quanto mais 
se mira

a impressão
não cabe
em poesia

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A Onda


O canário, quando canta,
não anuncia alegria:
ele apenas traduz
a onda invisível
que atravessa tudo.
Transforma o indizível em som.

O sol da manhã
faz da mesma onda um brilho.
A rosa, obediente,
a veste de vermelho.
O capim, humilde,
a converte em verde viço.

É a onda que varre o universo.
É a onda que pulsa sem nome.
É a onda que chamamos vida.
É a onda que é tudo o que há.

O pássaro não canta porque está feliz.
Canta porque está em fase.
Quando não está,
há um ruído na engrenagem frágil
que chamamos corpo:
então ele silencia,
amuado de mundo.

E nós, homens do “eu”,
do “isso é meu”,
do “como sou isto ou aquilo”,
do “como sou belo”,
do “como sou abençoado”…
isso é a maquininha falando.
Isso é desafinar da onda.

Estar na onda é entrega.
Entrega sem vaidade.
Entrega inocente.
Entrega cega.
Entrega sem tribunal.

Quando julgo,
oscilo entre bem e mal,
e nessa oscilação
não há entrega.
É o mundo da serpente:
fora do paraíso.

Se penso que o bom
mora à direita ou à esquerda,
não me entreguei.

Entregar-se é soltar.
Há quem chame de caminho do meio,
outros de caminho reto,
outros ainda de justiça.

Eu chamo de silêncio aberto
tento não conduzir
mas ser conduzido.

Deixar a onda me levar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Atalho

 

A gente vai pela vida
parecendo não estar
onde está.

 

Sempre um desejo adiante,
um querer lá na frente,

o agora reduzido
atalho

corredor estreito,
passagem apressada
entre um antes

e um depois.

 

Onde devíamos estar
já estamos.
Aqui é o chão exato
do que precisa ser feito,
a sala de aula do que

carece ser aprendido.

 

Quando uso o agora

como atalho, corredor,
fico repartido:

um pedaço de mim

sentado na cadeira,
outro, desprendido

a mirar o que

ainda não existe.

 

Então viro isso:
sobredividido,
coxo,
xoxo,
côncavo
oco de mim

eco de mim.

 

Se eu não viver
o que me vem

O que sobra além
senão tédio.

impaciência.

ansiedade
ignorância

 

Sobra é sobra

Se vou por esse atalho

daí, além de burro,

ignorante.