quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A Onda


O canário, quando canta,
não anuncia alegria:
ele apenas traduz
a onda invisível
que atravessa tudo.
Transforma o indizível em som.

O sol da manhã
faz da mesma onda um brilho.
A rosa, obediente,
a veste de vermelho.
O capim, humilde,
a converte em verde viço.

É a onda que varre o universo.
É a onda que pulsa sem nome.
É a onda que chamamos vida.
É a onda que é tudo o que há.

O pássaro não canta porque está feliz.
Canta porque está em fase.
Quando não está,
há um ruído na engrenagem frágil
que chamamos corpo:
então ele silencia,
amuado de mundo.

E nós, homens do “eu”,
do “isso é meu”,
do “como sou isto ou aquilo”,
do “como sou belo”,
do “como sou abençoado”…
isso é a maquininha falando.
Isso é desafinar da onda.

Estar na onda é entrega.
Entrega sem vaidade.
Entrega inocente.
Entrega cega.
Entrega sem tribunal.

Quando julgo,
oscilo entre bem e mal,
e nessa oscilação
não há entrega.
É o mundo da serpente:
fora do paraíso.

Se penso que o bom
mora à direita ou à esquerda,
não me entreguei.

Entregar-se é soltar.
Há quem chame de caminho do meio,
outros de caminho reto,
outros ainda de justiça.

Eu chamo de silêncio aberto
tento não conduzir
mas ser conduzido.

Deixar a onda me levar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Atalho

 

A gente vai pela vida
parecendo não estar
onde está.

 

Sempre um desejo adiante,
um querer lá na frente,

o agora reduzido
atalho

corredor estreito,
passagem apressada
entre um antes

e um depois.

 

Onde devíamos estar
já estamos.
Aqui é o chão exato
do que precisa ser feito,
a sala de aula do que

carece ser aprendido.

 

Quando uso o agora

como atalho, corredor,
fico repartido:

um pedaço de mim

sentado na cadeira,
outro, desprendido

a mirar o que

ainda não existe.

 

Então viro isso:
sobredividido,
coxo,
xoxo,
côncavo
oco de mim

eco de mim.

 

Se eu não viver
o que me vem

O que sobra além
senão tédio.

impaciência.

ansiedade
ignorância

 

Sobra é sobra

Se vou por esse atalho

daí, além de burro,

ignorante.