a impressão
desafina
o coração
no penso ser
destoa
do que é
pulsação
é chispa
de reação
vai macio
brilhante
instante
a impressão
é impertinente
dura cortante
de breu
há meu e seu
sem céu
quanto mais
se mira
não cabe
em poesia
O sol da manhã
faz da mesma onda um brilho.
A rosa, obediente,
a veste de vermelho.
O capim, humilde,
a converte em verde viço.
É a onda que varre o universo.
É a onda que pulsa sem nome.
É a onda que chamamos vida.
É a onda que é tudo o que há.
O pássaro não canta porque está feliz.
Canta porque está em fase.
Quando não está,
há um ruído na engrenagem frágil
que chamamos corpo:
então ele silencia,
amuado de mundo.
E nós, homens do “eu”,
do “isso é meu”,
do “como sou isto ou aquilo”,
do “como sou belo”,
do “como sou abençoado”…
isso é a maquininha falando.
Isso é desafinar da onda.
Estar na onda é entrega.
Entrega sem vaidade.
Entrega inocente.
Entrega cega.
Entrega sem tribunal.
Quando julgo,
oscilo entre bem e mal,
e nessa oscilação
não há entrega.
É o mundo da serpente:
fora do paraíso.
Se penso que o bom
mora à direita ou à esquerda,
não me entreguei.
Entregar-se é soltar.
Há quem chame de caminho do meio,
outros de caminho reto,
outros ainda de justiça.
Eu chamo de silêncio aberto
tento não conduzir
mas ser conduzido.
Deixar
a onda me levar.
A gente vai pela vida
parecendo não estar
onde está.
Sempre um desejo adiante,
um querer lá na frente,
corredor estreito,
passagem apressada
entre um antes
e um depois.
Onde devíamos estar
já estamos.
Aqui é o chão exato
do que precisa ser feito,
a sala de aula do que
carece ser aprendido.
Quando uso o agora
como atalho, corredor,
fico repartido:
um pedaço de mim
sentado na cadeira,
outro, desprendido
a mirar o que
ainda não existe.
Então viro isso:
sobredividido,
coxo,
xoxo,
côncavo
oco de mim
eco de mim.
Se eu não viver
o que me vem
O que sobra além
senão tédio.
impaciência.
ansiedade
ignorância
Sobra é sobra
Se vou por esse atalho
daí, além de burro,
ignorante.