sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

AGORA

AGORA

Chegou 2024. Chegou o ano que vem. Meu pai sempre falava (fala ainda), no ano que vem isso, no ano que vem aquilo. Nunca gostei. Risos.

HOJE. Deus está no agora. Se estou com a cabeça no passado ou no futuro, estou sem Deus. Ele está no agora. Ele é agora. É agora que os oceanos se movem. Que os peixes nadam. Que os pássaros voam. Agora.

A laranja do futuro será laranja se agora a seiva certa for enviada a flor, a luz adequada do sol envolvê-la, a vespa ou o vento fizerem seu trabalho de polinização.

O viço vivo está sempre no agora. A nosso compromisso (semeadura) deve ser com o agora. Então vamos firmes. O que chamamos “tempo do Senhor” trará o fruto maduro.

A questão é plantar e soltar. E não ficar na expectativa para o futuro, sobre quando virá. Não. A Glória está no agora onde o Pai é conosco e então temos tudo o que precisamos, enquanto as sementes espirituais operam.

Eu e o Pai somos um. Onde estou é Terra Santa. Devemos olhar agora sem as sombras do passado e sem as expectativas gasosas para o futuro.

Se me vem que devo estudar para no futuro melhorar minha remuneração. Não bem caso de futuro. Devo estudar agora. Devo me inscrever no vestibular agora. Devo me preparar agora.

É no agora que está o calor da vida, a força da mudança. A unção do Pai

Um 2024 cheio de agora para nós.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

No Ano Novo, apenas sejamos.

O que é sempre foi e sempre será. 

O que deixou de ser, nunca foi.

O Absoluta não se explica.

Se sente e pronto. É o que é.

O que nos levou a sentir pode ser descartado. 

Não reside nada especial aí.

Não queiramos sistematizar, ensinar.

Nada é o que parece ser.

A Onda onipresente traz as energias 

e direcionamentos necessários.

Essa Onda é o que é e sempre foi.

Não vejamos o que vemos,

Pois o que vemos é o que não é.

Se alcançarmos além, sentiremos o incognoscível.

Olhemos para dentro. Sintamos.

Não há nada fora que valha uma lágrima nossa.

Da floresta que desconhecemos 

Somos influenciados pelas sombras,

sem saber que são sombras.

Quando reconhecemos algo, 

pensamos extrair a árvore.

Sem cuidar que arrancamos apenas o visível.

Tanto tempo a árvore lá,

Impôs desdobramentos ao ecossistema.


No Ano Novo, firmemos compromisso

Com o sentir. Apenas sejamos.



sexta-feira, 9 de junho de 2023

herói da noite

papai foi a vila

preparou com capricho
o cavalo carrapicho
 
foi limpar arroz
comprar sal
linha e retrós
 
mamãe ficou comigo
já é noitinha
a lenha estrala em labaredas
e o feijão já cheira gostoso
 
mamãe de ouvidos abertos
busca pelo tropel do carrapicho
late o cão Rex
mamãe sente o peito apertado
 
um curiango pia longe
na mente de mamãe
farfalham preocupações
 
olha, escute o tropel
não, não acho que não
será será, será
mamãe abre a janela
espia lá fora

 

o vento faz tremer
a cortina de chita

é a chaminha da lamparina

mamãe se abraça se agita

 

é capaz que sejam bezerros
ou vento nas bananeiras
mamãe cresce os olhos
 
a lua já apareceu
e cadê o Tadeu
Ê Tadeu, ê Tadeu
 
deve estar de conversa
com o Zé Pereira
se deixar fica de prosa
a vida inteira
 
aí tropel outra vez
ou será o vento de novo
não... agora é mesmo
ela espia lá fora
 
sente o cheiro do roçado
no instante de dúvida

 
mas seu rosto se acende em riso
o tropel do carrapicho
enche a noite de ritmo
 
até que enfim
até que enfim
não gosto que seu pai
a noite por aí
 
Deus que livre e guarde
já pensou se cai
ela suspira
faz em nome do Pai
 
papai aparece
como um herói da noite
a longa capa cinza
cobre um corpo de homem
 
mas abaixo do chapéu escuro
vê-se o rosto
de menino tímido
 
papai lança sobre a mesa
um o pacote
sem dizer nada mamãe
se abre em riso
 
toda vez que vai a vila
papai trás para nós
um pacotinho com balas
 
mamãe adora essas balas
adora esse carinho
como beijinhos
açucarados
 
afoita ela desembrulha
a bala que lança a boca
com a língua vai rodando
a bolotinha açucarada
 
recebe nas balas
o beijo que meu pai não deu
contido por um jeito
tão antigo


na chaminha da lamparina

o menino vê um formato

de coração

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Premência

 

Eu tenho uns sonhos que, se contar, é capaz que duvidem. Mas, não me preocupo. Conto mesmo assim. Desta vez sonhei que estava em Consolação e que escrevi um poema sobre passado, presente e futuro. Que publiquei o texto na internet. E que o meu pai veio me falar que seu amigo José Pereira leu o texto e gostou. Disse que gostou muito. Aí meu pai me disse as palavras que o José Pereira lhe disse. Eu observei: pai, estou admirado com o entendimento avançado do José Pereira, e, igualmente, impressionado com o que senhor reteve das palavras dele. Significa que o senhor também está no mesmo nível de conhecimento/entendimento dele. Eu não lembro de nada do suposto poema que escrevi, e nem das palavras que meu pai falou. Incrível como nos esquecemos de tudo segundos após acordamos. Fica apenas a ideia. Ocorre que meu pai fez uma observação final e disso lembro. Ele disse, para finalizar, que o José Pereira arrematou dizendo que “é no presente que está a premência”. Refletindo, isso já acordado, sobrei surpreso. A palavra premência não está entre as que uso coloquialmente. Mal sei seu significado: urgência, que exige rapidez, conferi depois. Observo primeiro que, na verdade, em minha mente não haveria o verdadeiro José Pereira e nem o meu verdadeiro pai dizendo coisas. Seria o meu pai da minha mente falando o que o José Pereira teria dito. Enfim, mas seria o José Pereira da minha mente também. Resumindo... Sou eu apenas. Apenas eu de mim para mim mesmo. Mas como seria possível se mal sabia o significado da palavra? Outra, e este é o segundo ponto, o que seria isso de “é no presente que está a premência”? No presente que estaria a urgência? Não faz sentido... Então busquei refletir. Conclui que premência é o ato de premir ou premer... que seria o mesmo que apertar, espremer. Então, pensemos numa laranja. Se é laranja do passado, com lá aquelas das laranjeiras da casa da madrinha Lázara que eu gostava tanto. Até recordo o sabor. Se é laranja do futuro, da chácara que haverei de organizar, até imagino o dulçor. Agora, isso tudo é imaginação. O verdadeiro dulçor do caldo da laranja posso experimentar apenas no agora. Apenas nele posso “premer” a laranja que Luciana acabou de trazer da feira, para conhecer o sabor, o verdadeiro sabor. Então, o José Pereira está certo. Não devo sobrar imerso em suposições, pelo que já conheço. "É no presente que está a premência". Apenas neste grande agora posso e devo “apertar” o que me vem, para, com curiosidade de criança, mente limpa, verdadeiramente conhecer, e nisso devo me fiar. Agora, de onde me vem essa mensagem, sigo sem saber. De qualquer forma, agradeço ao José Pereira (que já não está mais entre nós), e ao meu pai.



domingo, 18 de dezembro de 2022

completude

do sono deste mundo
acorda no outro o menino
 
reencontra tanta gente querida
não se cabe de alegria
corre pula rodopia
 
assombra-se pelos pais
também meninos
e por todos poderem voar
 
recorda-se de tudo quanto
havia se esquecido
e experimenta uma completude
de espantar
 
sabe da ausência de alguns
reconforta-se porque
em breve estarão lá
 
desconhece que para eles 
o mundo de cá por hora
parece manco



quarta-feira, 16 de novembro de 2022

nós


confesso que
às vezes não gosto do
adolescente encabulado
que fui

porém conversei com
ele um dia desses
ele me ama me ama
acha bonito quem sou
comove-se comigo
admira-me

comovi-me também
pensando bem
só tenho a agradecê-lo
por não tem ficado lá
por haver me trazido perto
de onde estou

(muitos amigos ficaram lá
nem preciso dizer)

abracei-o
foi emocionante
disse-lhe que fez
um ótimo trabalho

quis saber dele
como poderia compensá-lo
depois de tanto bloqueio

ele disse investiu em mim
que deseja apenas que eu vá
que ainda tem muito a ser buscado

que estará comigo
que eu seja os sonhos dele
que eu valorize isso
que eu veja tudo quanto
já aconteceu

alertou-me que não gosta
quando me comporto como ele
que preciso me olhar
sentir que não sou mais ele

por fim disse
que eu seja livre
que eu seja leve
que nos leve
e que pare com essa de
querer ser impecável

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Entrega

escrevi esses dias um textinho 
enquanto esperava a Lu no carro
é bobinho vai lá o nome é entrega
“quando sou dúvida em cima do muro
pelas frinchas do capricho
o mundo empurra-me caminhos
e eu sem perceber então vou
mesmo supondo não ir
que ainda possa escolher
que logo vou escolher
sem notar o final da corda logo ali
pra que céu e terra dialoguem em mim
preciso ser criança de Criação
a vulnerabilidade é o conector”
serve para mim serve para você 
dúvida a gente tem de quase tudo
mas não podemos viver em caracol
numa eterna indecisão 
um eterno não sai do lugar
dúvida de tudo tanta dúvida que 
nem mais lembramos da dúvida
tem uma entrega infantil amigo
que temos ofertar à vida
que não combina com ficar  
nos feios do caminho
temos que fechar o olho ruim
para o bom conduza a dança
tem uma inocenciazinha infantil aí sei
mas tem que ser assim
é essa vulnerabilidade que nos conecta ao Pai
se ficamos num canto com o olho ruim arregalado
para não levar uma rasteira aí que levamos a rasteira
então eu não diria abra o olho amigo
diria fecha o olho

terça-feira, 8 de novembro de 2022

ideologia

o godero sorrateiramente
suga os ovos do tico-tico
põe seus do lugar
o tico-tico choca
choca como seus os
ovos do godero
nascem os filhotes
o tico-tico acha que
são seus os filhotes
do godero
bate asas com orgulho
alimenta e defende
"suas" crias
a maioria das convicções
as quais achamos lindas e
supomos crias das nossas virtudes
não passam filhotes de godero
esse amor e ódio político
sabe possivelmente são
filhotes de godero
o coletivo onde caímos
botou em nosso ideário
pouco é mesmo nosso
então nos acalmemos

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Entre Irmãos

 

Bem-te-viiiii, bem-te-viii
Lança-me o passarinho
Da cerca do jardim
 
Não sei passarinhar
Digo-lhe com olhos
Ternos de menino
Que vê chuva
Pela janela
 
Não sou feito para
Voar e gorjear feliz
As copadas dos
Pessegueiros
 
Também não sei
Comer grilos
Vivos
 
Nem vivos
E nem mortos
Tenho nojo

É de chá
Que gosto
 
Deus me fez
Assim, gente
 
Essa coisa que
vai junto ao chão
arrastando-se
a dois pés
 
E com a mente
Sempre beliscada
De algum quê
 
Nem árvores
Sei escalar
Tão atrapalhado
Que sou
 
Mas, bem-te-vi
Posso amar-te

Amar-te com  
Toda Luz que
Nos une a
Criação
 
Lá de onde está
Iluminado por um
Raio esticado de sol
O bem-te-vi diz
Siiiim, siiiim, siiim
 
Acabo feliz

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Aurora

Tão linda a aurora
Dá vontade de engarrafar
Para ter a toda hora
Essa cor de recomeçar
Sentimentos luzes percorrem-me
Vibro orvalho perfume de flores favos de mel
Pululam-me pensamentos dentes-de-leão
Enfronhados de suavidade
Vida e ancestralidade
Cada canto do meu ser
Abrasa viva sensação de que
Devo sobrar tranquilo
Que o banquete já está posto
O hálito do novo dia
Cheira-me beija-me gosta
Chama-me para o amor
Pelo trino dos pássaros
Capto a música ancestral
Que flui equilíbrio
Anuncia que o vivo está no agora
Que fora dele há apenas ermo
Que não recebê-lo luz é vibrar deserto
Que tudo já foi ponderado
E a mim basta me entregar
Abrir olhos desembainhados
De medos e preconceitos
Olhos de infância
Sorvo mais um gole de chá, admiro
Tão linda a aurora
Dá vontade de engarrafar
Para ter a toda hora
Essa cor de recomeçar