sábado, 7 de janeiro de 2017

INCERTA

O sonho sonhava tranquilo
Ciente de que não seria descoberto
Pois mal passava das 4

Eu amassava uma amiga
Na Rua Ana Simões de Almeida
E era de novo 1987

Contudo o whatsapp ao desvelo
Não silenciado
Uma mensagem e seu barulho
E peguei o sonho no pulo

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

NINHO


Este ano não pude participar do encontro da Sabinada em Caconde. Coisas do ofício. A Luciana foi com o Otávio. Seguiram pela estrada de terra desta vez, pela Barra. Diz que a estrada está boa. Apenas cinquenta minutos de viagem. O Hélio também foi abaixo de um bonezinho. Coitado. Lembranças e discernimento sendo roídos. Por isso chegou meio distraído, aéreo, deslocado. Assentou-se num canto. A Palmira arrumando os cabelos e a roupa dele.

A Luciana disse que perguntaram por mim, que falaram que eu deveria ter ido. A Camila Dias disse que este ano ia conversar bastante comigo, para eu incluí-la em meus textos. A Tia Ruth disse que era para eu escrever assim mesmo. Seria a crônica do cronista que não foi à festa. Risos. A Cida Gonçalves perguntou a Luciana se ela estava anotando algo. A Luciana falou que não. Aí a Cida decerto pensou, então este ano não tem mesmo escrito do Kirk. O Carlos Alberto (meu padrinho de casamento) mandou-me recado em vídeo, reclamando. Disse que eu falei que ia. Não fui. Que sou “viado”. Decerto aí já não apenas ao suco e refrigerante como a Luciana. (Ela disse que não bebeu cerveja. Eu não sei se acredito).

O Otávio disse que foi tudo muito parecido. Aquela casa bonita curiosamente com jeito de chão. (Notou mais enfeites de Natal este ano). Que as tias Neuza, Odete e Ruth conversaram e conversaram. Que o Rovilson apareceu com uma caixa de lichia, pingos de aurora por fora, torrão de polpa carnuda por dentro. (As formigas fizeram roda a mira do sabor branco). O Tio Anísio dançou Bandeira Branca docemente com a Deta. Rodaram e rodaram. Um carinho bonito dela para com ele. Um cuidado emocionante. (Ele melhorou bastante. Lembra-se que no ano passado dançou apenas com os dedinhos para agradar ao menino Pipo?). Que fizeram muitas palhaçadas. (O Jaiminho pôs um pano de chita na cabeça e dançou como um maluco. As pessoas sorriram e aplaudiram como crianças malucas de felizes). Que havia pés descalços, gente sentada pelos cantos. As crianças se acabavam num pula-pula. Até um pequenininho filho da Andressa. Um toquinho que não sabendo se dormia ou se pulava tentava conciliar os dois. A Anita da Adriane, vermelha quase igual uma maça do amor. Que o Antônio Augusto como da outra vez se valeu da mangueira d’água para refrescar o ambiente. Dizendo que jogaria água no telhado mais jogava no povo, especialmente na Adriane, bem como em si mesmo. Jogava água no povo como jogasse balas para crianças.


Sem que eu pedisse o Otavio me mandou uma foto de um canto da casa, mostrando um ninho de passarinho. Fiquei emocionado. Passarinhos não fazem ninhos em qualquer lugar. Aquele lugar é mesmo especial. A família é um presente que Deus pensou para nós desde que nos projetou, para que toleremos bem os revezes da vida. Para que tenhamos lugar. Na família, se estivermos com o coração aberto; mas bem aberto mesmo, qual criança, sentiremos a pele, a voz, o cheiro de Deus.

O Helio sentiu-se confuso com essa emoção de união de espíritos. Ele não sabia bem o que era. Parecia cansaço. A doença lhe quebra todas as barreiras e assim de coração destrancado não é mesmo fácil receber essa energia potente, pura, ancestral. Ele partiu embriagado (aposto que estranhamente achando ali seu lugar), abaixo de música e carinho. (Paz, paz... Paz, paz, paz, paz...).

Bom seria se nossa vida acabasse sem dor, sem sofrimento. Que acabasse como as festas da Sabinada da Dona Eugélia naquela casa (ninho) com jeito de chão. (Paz, paz... Paz, paz, paz, paz... Paz-carigudum, Paz-carigudum, Paz-carigudum). Para a posteridade, mais uma foto. Tanta gente. Diferentes tão iguais. Desta vez todos diante da casa onde passarinhos fazem ninhos.
  
A casa bonita
Com jeito de chão
Onde passarinhos
Fazem ninhos

Pés descalços
Povo pelos cantos
Um dedo de prosa
Dez dedos de prosa
O que proseiam tanto

A alegria do menino
Que tenta conciliar
Dormir com pular

A caixa de lichia
Por fora
Gotas de aurora
Por dentro
O carnudo branco

Família. Alvoroço
Diferentes tão iguais
Perguntas e respostas
Idas e voltas

Ninho

(Essa é a crônica
Do cronista que
Não foi a festa)

sábado, 31 de dezembro de 2016

Nu

Na Matriz de Consolação
A tia Tereza, o Tião Cirino,
A Guidinha do Josino
O João Tucum
A Tia Zélia, tão bonitinha
O Carlão do tio Quim
O Geraldinho Chapéu,
O Tião do Marco
O Lazo do Cândico,
O chão quadriculado
Tem os pisos gastos
Por meus ancestrais
E de repente não
Passo daquele menino
De 40 anos atrás
Isso assusta e não sei
Se é síndrome do pânico
Ou fobia social
Acho que não
Apenas desconexão
Uma dúvida
Se todo esforço valeu
Um abismo entre quem sou
De quem quero ser
Assusta um pouco saber
Que ali, talvez,
Conheçam-me até mesmo
Melhor do que eu


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

ERMO

Há um ermo
Em nós

Tudo fazemos
É para povoá-lo
Desentortá-lo
Preenchê-lo
Alegrá-lo

A questão é que
“pode ser” que
Não haja
Ermo algum

Que isso seja
Apenas engodo
Da natureza para
Nos mover


domingo, 25 de dezembro de 2016

LODO

Rosto queimado
Latejo de sol
Descanso falta
Num tanto a fazer

Obrigações
Tem demais
Um tudo
Sem sossego

Caçoa de si
Coça dedos
Aspereza

A ganância
Se vê nos zoio
Levam tudo
Como fosse nada

Tanto tipo
De gente

O cachorro late
Late, senta
Abana a cauda
Obedece

Esse é amigo

Faz carinho nele
Agardecido
Da um pouco
Da pouca comida

Vê tanta cerca
Tanta
Pros passarinhos
Não tem

Cantam
A pequeneza
Dos homens

Os miolo pipoqueia
Nuvem de piaba
Poço sem água

Lodo

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Caminhando

Em algum lugar em mim
Em algum lugar em mim
Ainda caminha o menino da roça
Rumo à cidadezinha em que nasci

Que alegria saber
Que ao vencer a subida
Do tio Zé Teixeira
Receberei às vistas
Da claridade dos postes
Como tochas indicando-me caminho

E logo os professores falarão
De mundos distantes
E os amigos falaram do seu dia
E do que lhes foi interessante

E da menina de olhos negros
Sentirei o hálito
A aula toda sentado
Tão próximo dela
Fingindo dificuldade
Em matemática

Ainda hoje esse menino
Caminha caminha em mim
Criando-me sensação de quase lá
Iludindo-me por esconder a sina nossa
Que é ficar pelo caminho


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

a que ponto

Bem. Precisei repintar apenas uma parede do ambiente. Por uma infiltração já resolvida. Eu precisava usar tinta da mesma cor, lógico. Onde comprar? Deveria ser da mesma marca também. Entrei no Google Maps. Digitei Suvinil para ver as lojas na região que moro. Vi a mais próxima. Dirigi-me ao local com um pedacinho da tinta descascada e também com a nota da sua compra. Já na loja, fiquei irritado. A marca comercializada era Coral. Irritei-me com o Google. Direcionou-me a uma loja de tinta de outra marca decerto por alguma propaganda paga, avaliei. Já ia saindo quando enfim resolvi olhar a nota. Vocês não acreditam. Era Coral. A tinta que eu tinha na parede era coral e eu por engano buscava Suvinil. Conclusão: o Google está sabendo mais do que preciso do que eu mesmo. Risos. A que ponto chegamos. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

rolinhos


Nas manhãs daqueles dias na Cruz Vera, eu lançava quisera ao terreiro. Sobre os riscos amarelos, logo os passarinhos. Passos-pretos, boiadeiros, canários, rolinhas. Um embolado em poucos metros quadrados. Chamava-me atenção o jeito das rolinhas. Ao invés de aproveitarem para encherem o papo, brigavam entre si. Uma asa erguida como ameaçasse um caratê. Se pássaros de outra espécie lhe abeiravam, tudo bem. Se rolinha; então era guerra, numa luta que apenas as fazia perder tempo. Os outros iam aproveitando, não se importando com um semelhante lado-a-lado. As rolinhas me fizeram recordar os homens, tantas vezes tão preocupados com rolinhos que até se privam de oportunidades de ajudar-se a si mesmo.

Exemplo

Eu muito bem sei
Da importância
Do exemplo
Pois toda vez
Que entro
Numa igreja
Recordo meu avô
Irritado
Incomodado
Carrancudo
Doente
Mas jamais perdendo
A missa de domingo
A tarde

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Drenagem

Quando ouço uma canção 
Que acho bacana,
Principalmente se pela primeira vez...
Já sei. 

Devo ouvir no máximo três vezes.
(Digo em sequência).
Do contrário ela entra em minha mente. 
Toma conta. 

Não estou falando daquele negócio 
Da síndrome da canção aprisionada. 
Quando a gente mesmo sem querer
Fica mentalmente repetindo, 
Repetindo a canção. Não. 

Falo de energia. 
Essa música, gente
Invade a minha mente 
E gira, gira, gira
Cobrando para si muita energia. 

Se ouço várias vezes antes 
De dormir, então. 
Certeza de sono prejudicado. 

A música ocupa um lugar 
Ligado ao descanso, 
Abalando, excitando. 
Será normal? 

Falei com a Luciana. 
Ela sorriu. 
Acha que estou de onda. 
Principalmente quando digo 
Que me atrapalha o sono. 

Juro que é verdade.