segunda-feira, 1 de maio de 2017

MOÇA

Oh, moça. Você acha
Que a nós, seus amigos
A vida deu horas melhores

Não deu, moça. Você põe meia
Noite tempestuosa em pleno
Meio dia florido. É mestra nisso

Talvez o que lhe falte, moça
Não são melhores horas
Mas sim melhores olhos
Para bem notar as flores
Que estrelam seu jardim

Abre as cortinas cinzas, moça
Poe florzinhas às janelas
Deixa a luz do sol entrar para
Dissolver essas sombras
Que põe em você olhar duro

domingo, 30 de abril de 2017

NINHO

O menino à barranca
Encontra um ninho
Com ovinhos azuis
(Acha que é de anum)
Ninho tão caprichado
Feito com raízes
Folhas e crinas
Perto do pé de articum
O menino
Não põe a mão
De jeito nenhum
Porque na roça
É coisa que todos sabem
Que se o homem
Põe a mão no ninho
Ele é abandonado
Pela mãe passarinha
O menino fica pensando
No que teria a
Mão do homem

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Paralelepipedos

Eram claros
Aqueles dias
De eu menino
Pelas ruas de pedras
De Consolação

Nas pedras
Eu via desenhos
Lia mensagens
Do além

Eu era o raio
Não o trovão

(Era bom ver
Que as pedras
Não precisavam
Ser iguais)

Eu podia até
Fechar os olhos
Que não me perdia

(E meu gato
Sempre sabia
Voltar para casa)

Tinha uma pedrinha
Mais escura
E menorzinha
Que eu gostava
De pisar e repisar
Só porque meu pai disse
Que em menino
Também assim fazia

Aquecia-me saber
Que pisava bem
Onde pisaram meus
Ancestrais
Numa parceria
Atemporal

Juntos políamos
As pedras
De onde dos vãos
Cresciam os trevos
De quatro folhas

Tinha a praça,
A capela, o sino
Mas eram os 
Paralelepipedos
Que formavam o tapete
Da minha liberdade

domingo, 26 de março de 2017

Andarilho

Deus mandou um
Anjo à Consolação
Para ver como
As coisas iam

O anjo veio
Chegou disfarçado
"O Pai é mesmo
Caprichoso"

O anjo gostou
Das montanhas
Das cachoeiras
Dos verdes

Abençoou tudo
As novas flores
O ar e os novos
Passarinhos

O anjo também
Ouviu o povo
(Deus deu
Autonomia ao anjo

Que resolvesse
Com milagres
Caso preciso
Entendesse)

Mas partiu o anjo
Sem milagres
O povo bastava pros
Seus problemas

Era doar-se mais
E querer menos
O avanço ali
Dispensa milagres

sexta-feira, 24 de março de 2017

EPÍLOGO

O Tio Valdomiro,
Encostado a barranca
Rosto desmanchado
Não tinha o vício do cigarro
Que quem sabe ali
Até bem lhe atendesse
A Titininha grita algo
Acho que ele nem escuta
Olhos orvalhados
Para os lados 
Do Alto dos Cirinos
(Que era o máximo
Que Podiam)
Ele olhava
Mas duvido que visse
Cantavam os passos-pretos
Jururus as galinhas
Latia o cão cinza
Como rondasse o perigo
Eu saí pela porteira de tábua
Disse até logo, tio
Ele abanou uma mão
Tentou sorrir
Na solidão da tardinha
Do início da década de 90
A Titininha falou
Em bolo de fubá
Duvido que algo
Adoçasse a boca do tio
Foi a derradeira
Vez que o vi
Um homem ativo daquele
Não ia mesmo gostar
De viver
Encostado às barrancas

sábado, 11 de março de 2017

Saudade

A madrinha quentava sol
Fora de casa, no pasto
Abraçava-se a si mesma
Lá próxima às roseiras

Caminhava para cima
Conforme o sol descia
Quando o Lélis chegou
Ela já ia looonge

Ele caçoou dela
Respeitosasmente
O padrinho trouxe
Para ela florzinhas
Que achou no brejo

Ela não se animou muito
Olhava à estrada, circunspecta
É o frio da tarde, coitadinha
Pensou o padrinho

Depois ela suspirou
Falou consigo, baixinho
Aaah que saudade
Do mano Luizinho

sexta-feira, 10 de março de 2017

ALFINETINHO

Sabe aquele negócio
Fazer tudo igual
Risinho sempre no rosto
Entrega nas mãos de Deus
É palavra que sai fácil
Eu não gosto de ser assim
Mundinho ensaiado
E aguinha-com-açúcar
Credo de jeito nenhum
(Até o  estômago
Me embrulha)
Prefiro ser aquela
Engrenagem torta
Que não funciona direito
Que pula espirra trava
Que abala e tumultua
Às vezes o negócio
Não é com o açúcar
E gosto mesmo é
Do limão
Até alfinetinho
Me chamam

sábado, 4 de março de 2017

A MINHA FIGURA

Às vezes fico intrigado
Com a sensação
Que a minha figura
Desperta nos outros

Suspeito não seja boa

O Aécio tem uma
Ruga feia
Entre as sobrancelhas
Também tenho

A figura dele
Me desperta
Sensações de
Arrogância

Quando passo nas
Ruas movimentadas
Pouquíssimos ambulantes
Oferecem-me coisas
Cartão de credito
Correntes de pescoço
Coisa assim

Acho que minha figura
Espanta

Um dia eu ia embora
E um colega observou-me
Nos corredores da empresa
Nossa que cara boa

Aí pensei. Então é isso
Tenho que fazer cara
De estou indo embora
Depois de um
Bom dia de trabalho

Um pequeno riso
Meio que esquecido
Um relaxamento dos
Músculos da testa
Uma formação agradável
Dos arcos das sobrancelhas

Depois disso tento
Replicar essa situação
Tento... Mas receio
Sem muito sucesso

Risos

sexta-feira, 3 de março de 2017

( )

A fome de uma criança
É fome que não se acaba
É um vazio que  
                        l
                          a
                             n
                                ç
É vazio da vida inteir     a

quarta-feira, 1 de março de 2017

Abismo




Um mal-entendido
Jogaram-me no abismo

Mas o que não sabiam
É que sei voar

Jogaram-me no abismo
Mas voei