sábado, 30 de janeiro de 2016

A MENINA DO VESTIDO VERMELHO





Imagine uma casa cheia, um povão falando, o tilintar de copos e talheres. Contudo uma menina se sente só. Pensa que se desaparecesse ninguém lhe daria pela falta. Ela imagina o Espaço sideral como um local frio, sem cheiro, quieto, escuro. Um nada. Eternamente, um nada. E também é assim que ela se sente por dentro. Um nada. Eternamente, um nada. Veste o vestidinho vermelho que foi da irmã mais velha. Acha-o tão bonito. Até fez em si umas tranças num lado dos cabelos, para combinar. A irmã fazia tanto sucesso com o vestidinho. Porém ninguém lhe fala do vestido, ninguém lhe fala das tranças. Ela come e come. O que mais lhe resta numa festa onde lhe veem sem enxergar. Cai um pedaço de bolo grudento em seu vestido. Mandam-lhe que se limpe. Ela fica surpresa por ser vista. Faz um teste. Vira intencionalmente um copo de refrigerante na mesa. Veem-na. Gritam que preste atenção. Depois outro teste. Estoura a correia da sandália por querer, embora fazendo parecer acidente. Veem-na outra vez. Uma tia gorda ainda diz com uma boca cheia de ar, bufando, ô menina desastrada. Ela gosta de ser vista, dos olhos das pessoas lhe mirando. Não lhe é comum. Excita-lhe. Dá-lhe sensação de existência. Algo quente e agitado. Bem diverso do gelado do Espaço sideral. Ali ela aprende como fazer para ser vista.  

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

BONEZINHO

O menino chega ajeitando
O bonezinho feio
As visitas tão grã-finas
Ele tão sem jeito
A mãe, envergonhada
Pede que retire o bonezinho
Ele finge que não escuta
A mãe insiste, insensível
Ele obedece, cara de dor
Olhos ao chão
O bonezinho, à altura do
Umbigo segurado a duas mãos
Sentindo-se nu
Sabe agora todos saberão
Que a feiura não é pelo
Bonezinho azul

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Florzinhas Amarelas


Alegrias são
Florzinhas amarelas
Nascidas num vaso
De bondades
O que nos cabe
É a parte da bondade
O resto é
Com a Natureza

sábado, 16 de janeiro de 2016

Fantástico

A Filomena sempre ia lá em casa, na roça. Um dia me viu desenhando. Pediu para ver. Disse que eu desenhava bem, mas que meus desenhos eram comuns. Que tinha uma neta que também desenhava, contudo os desenhos dela eram bem diferentes. Eram "coisas lindas". Ela representava diferente do que via, como fossem coisas de outros mundos. Ela prometeu que na próxima ida levaria um caderno da neta para eu ver. Então me pus a pensar como seriam aqueles desenhos. Comecei a misturar, criar formas que não existiam, por cores diversas do que normalmente seria, imaginar a vida acontecendo em outro planeta, desenhar sensações. Enfim, afundei nesse mundo da imaginação. Certo dia chegou a Filomena com o tal caderno de desenho. Foi uma decepção. Eram desenhos infantis. Eram os olhos da Filomena que davam àqueles rabisquinhos a mágica que ela me passou. Mostrei meus novos desenhos a ela. Fantástico, foi o que ela disse.   

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A VIZINHA DA VIZINHA DA CASA COR-DE-ROSA

Ela varria e varria a calçada de frente a sua casa. A vizinha da casa cor-de-rosa não varria tão bem sua calçada; mas sua casa cor-de-rosa era tão bonita. Cor tão viva, jardim tão harmonioso, varanda tão arejada.

O chão já estava limpo, muito limpo; mas mesmo assim a vizinha da vizinha da casa cor-de-rosa continuava varrendo. Chegou o vizinho da casa cor-de-rosa num fusca azul da cor do céu. A vizinha brincou: “comprou?” Ela achou que fosse emprestado. Ele disse: sim, comprei. Ela se engasgou.  Um susto, de repente. Pigarreou, tentou sorrir. Disse apenas “a vizinha vai gostar”. No “tar” do gostar ela fez como escarrasse.

Ato contínuo ela entrou agitada, cega, uma coceira no corpo inteiro, um abafamento. Os chinelinhos Havaianas estalavam à sola dos seus calcanhares. A vizinha ficaria feliz, sim, foi pensando. Num havia tempo comprara TV em cores. Geladeira já tinha há muito. E agora automóvel. O que mais quereria. Viu o filho, roupinha velha, assistindo desenho na TV preto e branco. Ralhou com ele por entre os dentes. “O que foi”, disse o menino. “Vai pentear esses cabelos”, disse com raiva; e insistiu mesmo a alegação dele de que já havia se penteado. O "vai já" dela pareceu latido.

Já ao quintal notou o gato da vizinha da casa cor-de-rosa debaixo do seu limoeiro. Ele sempre vinha ali. Nunca a incomodou. Mas naquela manhã, incomodou. Uma coisa ruim lhe veio à garganta, uma cegueira estrangulada. Desferiu uma vassourada contra o gato. Um golpe violento. Que ódio. Que ódio. Mas ele se safou. Fugiu. Ela bateu para matar. Errou.

Depois ela entrou sem entender direito porque de repente a manhã lhe parecia tão sem perfume, azeda. Pensou ouvir risos entre palmas da vizinha da casa cor-de-rosa. Bem aí o nublado ao peito transformou-se em acidez exagerada lhe excedendo ao estômago, tornando-se queimação incendiaria. Ainda pensou, “oh, meu Deus. O que será com meu estômago. Acho que não devia ter tomado tanto café.”

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Festa


Teve vacinação
Na casa do Tio Lauro
Não havia Posto de Saúde
E nem a escola havia
Era vacina de injeção
E imaginem o chororô
Mas depois da dor
A tia nos chamou
Com a mesa posta
Em bolos, sucos e doces
Engraçado nem me
Lembro da dor da injeção
Apenas da alegria
De ver a mesa colorida
Como pessoas boas
Transformam momentos
Falo da Tia Aparecida
Pensou nas crianças
Transformou aquilo em festa

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

(SO) RISOS

O Pipo chegou examinando por baixo da camisa. Torceu o nariz para o estrago do derradeiro tombo. O Skate, debaixo de um braço. Na sala antiga a Bíblia aberta na Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, que trata da unidade e superação dos conflitos em comunidade. A casa é antiga, sim; mas não velha. Foi reformada. Muito bem reformada, mantendo-se o estilo antigo, que ficou em tudo. Nos detalhes, no ar.

Alguém me chamou de Renato. Tudo bem. Eu olhei sorrindo, no ar um cheiro de madeira e churrasco. Eu nem sabia bem quem eu era. (Risos). Digo sobre a minha posição na árvore genealógica, já que sou parente por afinidade, agregado. A minha esposa que é consanguínea.

O Tio Anísio estava sentado, parecendo distante. Decerto ia com a cabeça em outros tempos. Quem sabe até visse os antigos, rondando. O menino Pipo olhou para o tio Anísio. Pareceu não gostar do que via. Fez uma graça, sorrindo. O tio não deixou sua circunspecção. O Pipo saiu um pouco frustrado, recolhendo o sorriso, então parecendo mais invocado com o ralado do tombo.

Fomos afundando casa adentro, conversando com um e outro. Minha esposa dizendo esse é meu marido, eu com um riso amarelo. Eu conhecia muitos dos presentes, contudo individualmente. Aquele bocado ajuntado de gente eu ainda não tinha visto. Dava liga bastante explosiva. A fala mais grossa dos homens contrastava ao ruidoso estridente das mulheres e crianças. Gritos, vozes, risos. Um zunzunzum crescente que tomava corpo e ocupava cada canto do lugar, recrutando cada um numa espécie de encantamento.

Recostei-me a uma coluna. Vi a Vera Dias quebrando nozes com um martelo na cozinha. O Paulão veio explicar que a melhor opção era mesmo por Poços. A estrada para o Palmeiral estava em petição de miséria. Depois foi ver o que a Terezinha queria. Aí veio um, contou uma. Saiu. Outro veio e falou que o primeiro era bom, mas mentiroso. Então contou e contou. O primeiro voltou. O segundo saiu. O primeiro disse que o segundo não era de confiança, que eu tomasse cuidado. Mas diziam daquele jeito, não se fazendo passar por sérios, sorrindo e sorrindo. Tudo brincadeira. 

Os mais novos abeiravam a churrasqueira e o freezer. Os mais velhos iam bem instalados à sombra da sala grande, que engloba o banheiro e praticamente a cozinha de outrora. O mesmo em todos os grupos. As lembranças. Os risos. As histórias vinham caudalosamente. E aquele DKV do Tio Vitor que fomos à praia. A roda saiu e nos passou. E a Belina do Wando? Como era gostoso deitar no porta-malas? E dos cachos de banana na praia, se lembra? Levávamos cachos madurinhos e dependurávamos às barracas. Aí íamos puxando conforme a fome vinha. Que delícia. Nunca mais comi bananas tão gostosas. E isso, e aquilo. Ninguém falava mal de ninguém. Nem de política, nem futebol. Nem reclamavam da crise. De nada mesmo. Nada.

A Luciana sempre-sempre falava desse pessoal do “Caconde”, mas eu não esperava tamanho acendimento. O Antônio Augusto atirava água valendo-se de uma mangueira. Dizia que era para refrescar a coberta da churrasqueira; molhava menos o telhado e mais o povo, que não reclamava e ainda fazia festa. Ele era o mais encalorado. Mais cedo eu já o tinha visto passando um pano de chão molhado no rosto, para se refrescar. Alguém falou, mas o pano é de chão? Ele sorriu, passando o pano com mais entusiasmo. Como não fosse o pano de qualquer chão, mas sim de um chão especial. A Adriane passou agitada. Que entusiasmo. Parecia ter um "redemunho" em si. E alguém ainda disse que ela parecia meio desaminada. Supus ser brincadeira, mas depois fiquei na dúvida. "Alguém me falou, que você me enganou, eu não posso acreditar. Eu preciso saber, se foi mesmo você, que mandou me avisar”.  Milionário e José Rico cantavam ao som, ajudando a engrossar o alarido.  

De repente, correria. Era como chegasse mais parentes. Fui ver. É que abriram um banner fotográfico. Uma surpresa. O ar antigo renovou-se como se um vento varresse a casa. Engasgos, olhos embargados, alguns às lágrimas mesmo. Eram doze filhos. Vivos hoje, apenas quatro. As Tias Ruth, Neuza, Dete e o Tio Vitor. No banner a Vó Gélia com os doze, os moradores originais da casa reformada. A emoção dos mais velhos era por ver aquelas pessoas em tamanho quase real. Era quase como vê-los novamente com vida. Os de idade intermediária entenderam o choro dos antigos. Os mais novos não entenderam bem. Quase acharam engraçado. Em seguida intuitivamente todos se amontoaram para uma foto coletiva. O banner também foi, estimulando uma foto de atualização da família. Enquanto várias fotos eram feitas as pessoas cantavam: “derrama ó senhor, derrama ó senhor...”.

Nessa onda de emoção, como se os falecidos realmente baixassem ali, um mais novo começou a imitar o tio Mirtu. Nova euforia. Cercaram-no. Pareceu que realmente o tio Mirtu incorporava-se ao André, que até se assentou, pois o tio Mirtu vinha desacostumado de corpo. Ô mãe. Ô mãe. Ele chamava a mãe Eugélia. E ia desfiando o nome dos irmãos: Ruth, Fiica, Bizi, Vitor, Dete, Neuza, Nelito, Lila, Duca, Zezé, Orga. Ele ia falando, xingando. Xingando ao modo dele, um pouco infantilizado. Uma fala mansa e pastosa, meio comprida. Nossa, igualzinho; houve quem dissesse. Pela emoção dos mais velhos vi que a imitação era bem próxima de perfeita. Até pediram para desligar o som. Eu mesmo desliguei. Quase perguntavam ao tio Mirtu sobre os outros, como estavam.

Espantou o tio Mirtu o parabéns para você e o pessoal chegando com um bolo de aniversário para a Ana Laura. Ela ficou no centro de uma roda, feliz, cantando junto, quase dançando como jogasse capoeira. Depois do estralar entusiasmado de mãos e boca adoçada a bolo e sorvete começaram um batuque. “Esta família é muito unida. E também muito ouriçada”. Uns cantavam, outros dançavam. Todos sorriam. Parecia uma tribo em festa. Pensando bem, é mesmo uma tribo.

O Pipo voltou a insistir com o Tio Anísio. “E esse batuque...”. O tio Anísio olhou para ele sem dizer nada. “Está gostando?” O Pipo insistiu. O Tio Anísio fez um gesto de samba balançando os dedos indicadores para cima e para baixo. Sorriu. O Pipo gostou que o tio sorrisse e também sorriu, abertamente. Ali tinha cheiro de ontem, sim; mas também centelha do amanhã. Naquele sorriso dos dois era futuro e passado sorrindo um ao outro. A foto coletiva era um presente para o futuro. Para daqui 50, 100 anos. Para que os futuros membros vejam como a família se compunha no início de 2016.

Numa agradável ociosidade deitei-me à muretinha arrematada em vermelhão da varanda para a rua. O zunzunzum era como fosse apenas uma voz. Uma única voz. A voz da família. Ancestral. Como se cada uma daquelas cerca de 80 pessoas ali fossem membros de um só corpo, como São Paulo constou na referida carta aos Coríntios. Espiei as três: Ruth, Neuza e Odete. O Tio Vitor não estava. Papeavam sentadas. Sorriam e sorriam. A vontade ali era apenas fazer comentários construtivos sobre qualquer coisa que fosse. O coração destravado clareia a vida da gente, provoca sorrisos. Gostei que meus filhos tivessem do sangue daquela gente.