não anuncia alegria:
ele apenas traduz
a onda invisível
que atravessa tudo.
Transforma o indizível em som.
O sol da manhã
faz da mesma onda um brilho.
A rosa, obediente,
a veste de vermelho.
O capim, humilde,
a converte em verde viço.
É a onda que varre o universo.
É a onda que pulsa sem nome.
É a onda que chamamos vida.
É a onda que é tudo o que há.
O pássaro não canta porque está feliz.
Canta porque está em fase.
Quando não está,
há um ruído na engrenagem frágil
que chamamos corpo:
então ele silencia,
amuado de mundo.
E nós, homens do “eu”,
do “isso é meu”,
do “como sou isto ou aquilo”,
do “como sou belo”,
do “como sou abençoado”…
isso é a maquininha falando.
Isso é desafinar da onda.
Estar na onda é entrega.
Entrega sem vaidade.
Entrega inocente.
Entrega cega.
Entrega sem tribunal.
Quando julgo,
oscilo entre bem e mal,
e nessa oscilação
não há entrega.
É o mundo da serpente:
fora do paraíso.
Se penso que o bom
mora à direita ou à esquerda,
não me entreguei.
Entregar-se é soltar.
Há quem chame de caminho do meio,
outros de caminho reto,
outros ainda de justiça.
Eu chamo de silêncio aberto
tento não conduzir
mas ser conduzido.
Deixar
a onda me levar.
